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Glaciares Alpinos: Até Quando?

Os glaciares alteram-se desde sempre, mas nas últimas décadas o seu recuo leva a temer o seu desaparecimento. Haverá neve nos Alpes no próximo século? Há quem diga que não.

Desde 1864 que os glaciares alpinos são estudados e as medições das últimas décadas, especialmente desde 1980, mostram que tem havido uma grande diminuição da superfície e volume de neve nos Alpes.

Por cada Verão mais quente que o normal ou cada Inverno com menos chuva a paisagem alpina muda drasticamente. Por exemplo, depois da canícula de 2003 (o Verão mais quente nos Alpes desde 1874) milhares de metros cúbicos de rocha soltaram-se das falésias do Cervin; cerca de 90 alpinistas tiveram de ser evacuados de helicóptero devido às derrocadas; o glaciar Gruben perdeu 60 000m3, quando o normal era derreter 20 000m3; e o nível de água do Reno ficou muito abaixo do normal

O aquecimento global

A causa para este fenómeno é sem dúvida o aquecimento global, que neste caso alia as temperaturas extremamente quentes de Verão, diminuição da chuva e quedas de neve no Inverno e aumento global das temperaturas, que nos Alpes é cerca do dobro da média. Para além das medidas normais que se podem tomar para minorar o aquecimento global, pouco ou nada há fazer, a não ser reflectir sobre os factos.

  • Em 2005, 84 dos 91 glaciares observados diminuíram;
  • A canícula de 2003 levou ao desaparecimento de 5% a 10% das reservas de gelos alpinos;
  • De 1850 a 1975 as neves eternas perderam quase metade do volume e um terço da superfície;
  • Estudos revelam que a temperatura irá aumentar 1,8º no Inverno e 2,6º no Verão nas próximas décadas;
  • Os glaciares derretem a uma velocidade cada vez maior.

Consequências do degelo dos glaciares

Para além da diminuição da superfície e volume de neve, há outras consequências que afectam os Alpes tanto de Inverno como de Verão:

  • Alteração da fauna e flora;
  • Modificação da paisagem;
  • Diminuição do nível de água em rios e ribeiros;
  • Redução da água potável;
  • Mais avalanches;
  • Mais derrocadas.

Lembremos que em Julho de 2006 um pedaço de rocha com cerca de 700 000m3 caíu da Face Este do Eiger. O solo da montanha, muitas vezes gelado em profundidade, mesmo no Verão, sofre o aquecimento climático e o degelo acentua a friabilidade da rocha.

E agora?

Os governos regionais alpinos reflectem sobre o problema, mas o grande motivo da sua preocupação é o decréscimo de turismo invernal que decorrerá da diminuição de área esquiável. Desta forma, o seu grande investimento recai em canhões de neve artificial[1] e nos meios técnicos que possam levar as pessoas até altitudes mais elevadas, onde ainda há bastante neve permanente.

Apesar dos desportos de Inverno e actividades de Verão poderem de alguma forma ser acautelados, a primeira preocupação deveria ser fazer os possíveis para evitar que esta situação se mantenha sem solução (não só nos Alpes, mas no Mundo) através de medidas mais drásticas da parte dos governos, maior fiscalidade e de um investimento na educação ambiental.

Ao escamotear o verdadeiro problema do aquecimento global, e consequente recuo dos glaciares, acaba por não se permitir que as pessoas se apercebam do resultado das suas acções menos ecológicas.

Imagens comparativas da evolução dos glaciares mostram-nos cruelmente as consequências do aumento de temperatura e deixam pouca esperança sobre recuperação dos mesmos.

Até quando os poderemos apreciar?

por Marta Brites Rosa

Foto: The Nerdy Climate Guys

[1] Em 2007 19% das pistas dos Alpes suíços têm neve artificial, 50% nos Alpes austríacos, 80% nos Alpes italianos e 60% nos Alpes franceses.

6 Comments for this entry

  • admin diz:

    Embora na última semana neve não tenha faltado por cá, aqui ficam dois artigos relacionados:

    Rocha Podre e Pedra Dura: Invernal, A Incógnita

    Climate Progress: Very warm 2008 makes this the hottest decade in recorded history by far (Inglês)

  • Luis Avelar diz:

    Os transportes rodoviários movidos a combustíveis fósseis (os nossos carros convencionais), são um dos principais responsáveis pela emissão de gases de efeito de estufa (GEE) para a atmosfera, sendo responsáveis pelo Aquecimento Global e consequente efeito pernicioso no clima, sobre os ecossistemas e meio físico, no qual os GLACIARES se integram O que faz cada um de nós em particular, montanhistas, alpinistas, escaladores para minimizar tal problema? Não deveriam ser estes os primeiros “defensores”, que tanto “amam” a montanha a dar exemplos práticos para não quererem fazerem parte do problema, e sim contribuírem para a solução? Essa é que é essa!!!!

    Algumas dicas que todos nós já sabemos mas…

    1º: abdicar tanto quanto possível do automóvel, utilizando os transportes colectivos e/ou partilhando o carro não apenas durante a semana, mas também, quando forem fazer qualquer actvidade, mesmo que seja de relativa “curta distância”.

    2º optar por automóveis mais eficientes ou preferencialmente movidos a combustíveis menos nefastos (electricos, Hibrídos) para a qualidade do ar e AG.

    3º Poupar ao máximo energia, optando por fontes de energia renovável…

    4º …

    um relatório de 2007: http://www.mtnforum.org/rs/bulletins/mf-bulletin-2007-07.pdf

    No comunicado que distribuirei no dia 11 de Dezembro DIA INTERNACIONAL DA MONTANHA, junto ao Centro de Interpretação da Torre na SE, abordará também alguma reflexão sobre este tema, mas relacionado com a mobilidade insustentável nesta AP.

    Luis Avelar – LA

  • Rogério Morais diz:

    Embora este artigo não seja exclusivo, ele prende-se sobretudo com as questões e problemática dos glaciares nos Alpes. Aproveito a ocasião para referir (e sublinhar) que a situação nos Pirineus é ainda mais grave, dadas as massas bem menores dos glaciares envolvidos, uma boa parte dos quais já desaparecidos nos últimos anos. Mesmo os glaciares do Monte Perdido e do Aneto, dois dos maiores, estão em clara regressão, à simples observação não científica, e no “curto” período de 30 anos em que os conheço, são quase irreconhecíveis. Descer pela vertente norte glaciar do Perdido, que era apenas uma questão de piolet e crampons, é agora uma descida delicada pelo grande ressalto rochoso que apresenta a meio, uma vez que o glaciar está praticamente partido em dois, excepto numa extremidade. E deixem-me ainda dar uma palavra apoio ao texto do Avelar: quando nos deslocamos à montanha, é nossa obrigação fazê-lo de um modo o mais sustentável possível (pessoalmente, tenho feito as minhas saídas aos Alpes a 5 numa viatura). Os montanheiros não são uma “estranha” excepção: também poluem e ameaçam a sustentabilidade do meio alpino. Um abraço e sejam responsáveis ambientalmente.

  • Rogério Morais diz:

    E também uma palavra de apreço pela elevada qualidade do artigo da Marta Brites Rosa. Que proliferem os artigos científicos e de alerta, são os meus votos.

  • Marta Rosa diz:

    Ainda bem que um artigo de alerta tem recebido os comentários e atenção que este tem: revela que há uma preocupação com o ambiente e com a sua degradação.
    Há no entanto grupos que discordam que o aquecimento global tenha relação com o nível de CO2.
    Não sei muito sobre o assunto, mas deixo aqui duas morada: http://dererummundi.blogspot.com/2008/11/aquecimento-global-uma-lufada-de-ar.html e http://mitos-climaticos.blogspot.com/ .

  • SilviaMB diz:

    A grande parte das pessoas que vão para a montanha são provenientes das grandes cidades, onde, aliado a uma grande falta de educação cívica e um desprezo pelos maleficios da poluição, existe um estado de “senso geral” que considera tudo como se fosse “garantido” (temos tudo o que precisamos, do supermercado mais proximo, nao temos de plantar nem colher, etc). Basta ver num local tão procurado como é a nossa Serra da estrela, cheia de gente á procura da tão desejada neve , e que quando a neve derrete podemos ver o flagrante tapete de lixo que grande parte dos “amantes da neve” lá deixam. Grande parte, porque não ha regra sem excepção e haverá certamente quem respeite a natureza. Muitas vezes vive se nas cidades um estilo de vida demasiado rapido, materialista e individualista para querer sequer reparar neste grave problema. É preciso pensar, querer parar para pensar e ver as coisas de uma forma global, e quem realmente ama o ar livre e a montanha, se o faz verdadeiramente, saberá que é um tesouro a preservar e dar o exemplo, assim como sensibilizar e alertar, numa altura em que os efeitos são já tão evidentes no meio ambiente, como é um exemplo tão flagrante, o degelo dos glaciares.

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