Primeira Ascensão Portuguesa do Monte Branco

Primeira Ascensão Portuguesa do Monte Branco

Chamonix, França, 4 de Outubro de 1979

por Rogério Morais

Nota do editor: Rogério Morais é formador no curso de Iniciação ao Alpinismo da Associação Desnível. Luís Fernandes um antigo associado da Desnível e reconhecido escalador. Ambos desconhecem ascensões anteriores por Portugueses. Se sabe de alguma ascensão numa época anterior ou se partilha alguma destas memórias deixe o seu comentário mais abaixo!

A ideia surgiu no seio das actividades de espeleologia, mais do que propriamente no meio do montanhismo. Desde há mais de um ano que entre espeleólogos se falava de actividades de alta montanha como forma de preparação física e com admiração por essas “façanhas”. Apesar dos cursos de montanhismo que alguns de nós frequentavam no MCJ e no Grupo de Montanha do CCL, por aqui os objectivos eram mais caseiros e rochosos: Pedra da Ursa, Noiva, Cântaro Magro.

Daí que o Luís Fernandes, na altura um dos mais recentes e activos espeleólogos, e eu próprio, já mais virado para a montanha do que para a húmida e sofrida espeleo, tenhamos começado a abraçar esta ideia de ascensão do Monte Branco, o cume mais alto dos Alpes com os seus 4.808 metros e geralmente tido como o mais alto da Europa, apesar de esta segunda afirmação apenas ser verdadeira para a Europa Ocidental.

A nossa experiência de alta montanha era pouca, para não dizer nenhuma. No verão do ano anterior tinha feito a ascensão da Peña Trevinca, na Galiza, um maciço modesto, mas ainda assim mais alto que o Gerês ou a Estrela, os únicos terrenos montanhosos que conhecia, para além das paredes de escalada e falésias da região de Lisboa.

Corria o ano de 1979, e por alguma razão mais ou menos próxima do “relax” e ocupação típica desta época, o verão foi passando, mas não a vontade de concretizar este projecto. Depois dos inevitáveis mas reduzidos preparativos, decidimos ir para o terminal de camiões TIR da Matinha, para tentar apanhar boleia. O primeiro dia não correu bem, e decidimos voltar no dia seguinte, sem grande esperança. Finalmente, pelas 16:30 do dia 14 de Setembro, um motorista da Maison Giraud aceitou levar-me, na sua cisterna de vinho tinto português, que iria chegar à Escandinávia como francês!

A viagem foi agradável, mas muito cansativa. No primeiro dia limitamo-nos a chegar à fronteira de Vilar Formoso, ainda sem auto-estrada além de Aveiras, mas o segundo dia foi sempre a andar, com poucas horas de sono. Eu sentia-me na obrigação de não adormecer, mas às tantas não conseguia resistir. Acho que o motorista se divertia com a minha resistência ao sono. Nesse dia alcançámos França pelas 21 horas e Paris pelas 16 do dia seguinte, 48 horas depois da saída de Lisboa.

O motorista deixou-me num arruamento com acesso simpático à rede de transportes de Paris, onde me encontrei com o Luís Fernandes e nos deslocámos para casa de um seu amigo, em Boulogne-Billancourt. E nos 8 dias seguintes fizemos um relaxante turismo na cidade Luz. Mais uma inconsciência de quem se dava ao luxo de perder preciosos dias do que restava do instável verão francês.

A 24, eis que nos lançamos à boleia para Chamonix, por estradas perfeitamente secundárias, e tendo como ponto de partida um qualquer final de autocarro suburbano em direcção a Fointainebleau. Neste dia, nem sequer a esta zona mítica da escalada de bloco chegámos, ficando por Corbeil. Clermont-Ferrand no segundo dia foi um enorme avanço, Lyon e Voiron no terceiro e finalmente a chegada a Chamonix no quarto dia de boleia. Uma aventura demorada, desgastante e muito cansativa. A comida ia sendo a possível, e só na chegada a Chamonix foi possível descansar e comer decentemente durante um dia, no parque de campismo “des Arolles”, o mais barato e pequeno de todos. O dia 29 foi já de aclimatação, com uma subida desde a cidade até à cota 2.385 no Glacier des Pelerins, ao lado do Plan des Aiguilles. Dormimos na estação do antigo teleférico abandonado, imediatamente antes do Glacier des Bossons, e só me lembro do terrível frio que passei com o saco cama em hollofill comprado a um brasileiro em Paris, que só em 2005 deu o berro com o rebentamento do fecho. As condições eram duras e o equipamento muito mau. O abrigo proporcionado pelo enorme casarão era apenas psicológico, e seguramente fazia tanto frio como no exterior. No dia 30 descemos, e o resto do dia foi passado a descansar e a recuperar no camping.

A 1 de Outubro, finalmente, a partida para a ascensão, com o estado de espírito dos primeiros exploradores do séc. XVIII, desde o vale, sem recurso a teleférico, e pela via original dessa primeira ascensão heróica. O material de que dispúnhamos era quase hilariante. O Luis estava razoavelmente bem equipado. Eu, pelo contrário, roçava o descalabro total. Tinha saído de Lisboa com 7 mil escudos, que por um lado era o máximo permitido pela legislação do então Primeiro-Ministro Mário Soares, mas que ninguém respeitava, e por outro era o que eu tinha conseguido juntar com as minhas curtas mesadas e o que sobrava com as constantes saídas de fim-de-semana e das férias que agora terminavam. Os passaportes tinham mesmo um anexo, no final, para registar as compras oficiais de divisas, mas todos compravam moeda estrangeira em Santa Apolónia, por exemplo. A mim tal problema não se colocava, para mal dos meus pecados.

“Blusão Kispo, do mais fino e permeável que se possa imaginar. Calças de bombazine, cortadas pelo joelho, como eram moda umas décadas antes. Luvas de lã desviadas da minha irmã (que ela usava para ir para a escola), gorro e duas ou três camisolas de lã. Era tudo, dentro de uma mochila Serval com alças que me torturavam os ombros.”

Mas voltando ao material de que dispunha, façamos um rápido inventário: em Paris comprei umas excelentes botas de alta montanha, em couro, modelo Oisans, talvez da Galibier, que ainda hoje possuo. Era para mim a peça fundamental e a única que me dava segurança e conforto moral. Já tinha tido experiências muito desagradáveis de pés congelados na Estrela e não iria repeti-las nos Alpes. O Baudrier (arnês) tinha sido comprado também em Paris mas para um colega da espeleo, e eu usei-o emprestado nesta ascensão. Nestes tempos, qualquer material de escalada tinha de ser trazido do estrangeiro, geralmente Vigo, Andorra ou Alpes. O piolet aluguei-o em Chamonix, mas o dinheiro já não chegou para alugar crampons (hoje a opção teria sido outra neste tipo de ascensão). Sem crampons, a escalada tornou-se uma aventura suicida, e maior valor dei às minhas botas rígidas, com excelente sola vibram, que me permitiam ter sempre degraus, nem que fossem apenas com 1 ou 2 cm. Ainda hoje me sinto muito à vontade sem crampons na neve dura, desde esta experiência. Quanto à roupa, enfim… Blusão Kispo, do mais fino e permeável que se possa imaginar. Calças de bombazine, cortadas pelo joelho, como eram moda umas décadas antes. Luvas de lã desviadas da minha irmã (que ela usava para ir para a escola), gorro e duas ou três camisolas de lã. Era tudo, dentro de uma mochila Serval com alças que me torturavam os ombros. A comida estava também reduzida ao mínimo concebível, e nem sequer fazíamos ideia se íamos demorar 2, 3 ou 4 dias. O Luís ainda tinha algum planeamento das comidas e gás. Eu, confesso que não.

Mas a ascensão começou, lenta e algo pesada, com o longo caminho que se inicia por baixo da estrada de acesso ao túnel do Mont Blanc. São umas horas esgotantes, que terminaram nas casas então abandonadas, mas relativamente bem conservadas do Plan des Aiguilles. Dormimos bem, até pelo cansaço já acumulado nos beliches de madeira, onde gravámos timidamente o nosso nome. Hoje estas casas estão recuperadas como verdadeiro refúgio, apesar de estarem 10 minutos abaixo da estação intermédia do teleférico da Aiguille du Midi

Na manhã de dia 2 de Outubro iniciámos de novo a marcha, agora num plano praticamente horizontal, para atravessar primeiro o Glacier des Pelerins, insignificante, mas onde me enfiei numa pequena crevasse até à cintura (as pequenas são as mais perigosas). Um pouco depois, atingimos o termo do caminho que já conhecíamos, junto ao teleférico abandonado, a que se seguia o enorme Glaciar des Bossons, que desce do Monte Branco até á cota 1.200. Precisando melhor, descia, nesse ano de 1979, porque no início do séc. XXI, com o constante aumento de temperatura e o consequente degelo já nem à cota 1.400 chega.

Esta foi uma das perdas que mais me custaram com os sucessivos regressos a Chamonix. Este glaciar, que nesta zona da Jonction é impressionante e extremamente crevassado, com seracs muito altos, inspira respeito e apreensão, sobretudo para mim, que estava sem crampons. Mas a progressão fez-se, sem problemas de maior, até porque as marcas de anteriores passagens eram abundantes, as crevasses maiores estavam equipadas até com escadas metálicas, ao melhor estilo himalaiano, o que nos fazia sentir numa verdadeira expedição, rodeados de um mundo que ainda não conhecíamos ao vivo, mas apenas dos livros devorados avidamente e de alguns filmes, emprestados pelas embaixadas aos clubes lisboetas por onde íamos passando.

A visão do Refúgio des Grands Mullets, desde baixo, alcantilado em cima dos rochedos com o mesmo nome, enquadrado pelo Mont Blanc em fundo, é simplesmente fantástica. Apesar dos escassos 3.000 metros de altitude, atingir este refúgio foi um desafio. Em particular a pequena escalada rochosa, fácil, que leva até à porta de entrada. Comparado com os 3.800 metros do refúgio da Aiguille du Gouter, este refúgio mais baixo é geralmente preterido, porque implica no dia seguinte uma ascensão de 1.800 metros, em vez dos 1.000 exigidos pelo Gouter. No entanto, foi nestes rochedos que os primeiros conquistadores do Monte Branco dormiram, e essa a razão da nossa escolha.

A entrada no refúgio, correspondeu a entrar num mundo novo. Apesar de o guarda estar ausente e de não estar ninguém neste refúgio fantasma (estavamos em Outubro, convém lembrar), ainda se respira uma atmosfera de refúgio guardado, uma vez que o guarda ainda não o encerrou para inverno, mas apenas o irá fazer dois dias mais tarde, com a nossa ajuda. A noite passou-se calmamente, sem história e com um jantar frugal. O facto de não termos de pagar a noite foi uma agradável e bem recebida surpresa, dadas as nossas “restrições” orçamentais.

No dia seguinte, de novo o glaciar, muito branco, mas ainda com muitas marcas. A respiração era cada vez mais difícil, e o cansaço omnipresente. As paragens para recuperar o fôlego, muito frequentes, mais parecendo estarmos nos Himalaias, tal como no dia anterior. Longo, muito longo, este glaciar, até que, ao fim de umas horas esgotantes, se nos abrem os horizontes para o Dome du Gouter e para a aresta somital que passa pelo refúgio-bivaque do Vallot e dá acesso ao cume. Daqui, chegar ao Vallot foi mais uma conquista. Apesar de próximo, está já acima da quota 4.000, e a nossa aclimatação era praticamente nula, apesar da anterior ascensão na floresta, que nada tinha a ver com o ambiente a 4.000 metros.

Por decisão do Luís Fernandes, que me era praticamente alheia, dado o meu estado de apatia geral, entrámos no refúgio do Vallot para passar a noite. Esta foi uma atitude impensável, pelo risco que acarreta dormir a esta altitude com a possibilidade de se instalar uma tempestade de vários dias. Mas o continuar para o cume, já com o dia bem avançado também não era opção, uma vez que para fazer cume deveríamos estar a passar aqui ao amanhecer, senão ainda de noite, e ao amanhecer ainda estávamos a sair dos 3.000 metros. Apesar de tudo, o Vallot tinha rádio ligado à Gendarmerie, cobertores e até algumas provisões de emergência, como sopas instantâneas e triângulos de queijo, o que nos dava alguma sensação de segurança. Mas as restantes condições eram deploráveis. Cheiro nauseabundo a lixo e nem sei que mais. Cobertores sujos e húmidos. Placas metálicas laterais a bater, com algum vento e frio a entrar. E, sobretudo, a altitude. Fiquei com a sensação de que não consegui dormir a noite inteira. Aliás nem tinha já noção do que era noite ou dia, uma vez que, exaustos, nos deitámos ainda de dia, pouco depois de chegar e de tentar comer alguma coisa. Aliás a gestão da comida, do enjoo, do mal de montanha, do cheiro penetrante, era algo demasiado para o meu estômago debilitado.

Mas o dia 4 de Outubro amanheceu, com ar encoberto, e foi necessário sair do refúgio. Algum peso ficou, muito pouco no meu caso, dada a inexistência de material supérfluo e de comida. A partir do Vallot começa propriamente a aresta somital e alguma dificuldade técnica. Se é que se pode considerar apenas “alguma” a quem tem de a subir sem crampons (e pior ainda, descer).

“A sensação de segurança dada pela corda era, julgo agora, meramente psicológica, dada a nossa inépcia e quase total desconhecimento das técnicas de travagem no gelo e neve dura, e pelo muito acentuado gradiente da aresta.”

O Luís Fernandes sobe em primeiro, por razões de segurança impostas pelos seus abençoados crampons. Devidamente encordoados e com o compromisso de honra de cada um se lançar para o lado oposto da aresta em caso de queda do companheiro. A sensação de segurança dada pela corda era, julgo agora, meramente psicológica, dada a nossa inépcia e quase total desconhecimento das técnicas de travagem no gelo e neve dura, e pelo muito acentuado gradiente da aresta. A respiração era outro problema relevante. A cada três passos, parávamos para respirar. A altitude dava-nos a sensação de estar a 8.000 metros. A fraqueza física era também já evidente, quer pela degradação do 4º dia em altitude, quer pela má nutrição, sobretudo no meu caso, uma vez que o Luís podia dar-se ao luxo de ter alguns suplementos. A ascensão parecia interminável. Bossa após bossa, aresta após aresta. Subida, cansaço, paragem, descanso, sofrimento. Uma sucessão interminável e a sensação do que custa um 4.000 a sério. Mesmo mais tarde, nas repetições que fiz do Monte Branco, este sempre me pareceu “mais 4.000” que todos os outros. A aclimatação parece nunca ser suficiente.

Finalmente a aresta alarga-se, deita-se, reduz-se a inclinação e, finalmente, o cume surge sem acreditarmos. Ainda avançamos uns metros para o outro lado para termos a certeza de que nada mais sobe nesta Europa ocidental.

Sensação estranha esta da conquista, do fim do sofrimento da subida. Ou o mero engano, uma vez que o pior ainda estava para vir. O dia corre cinzento, mas ainda se podem ver os cumes para o lado italiano. Tiramos as fotos da praxe. As do Luís saem mais ou menos, as minhas são de uma Kodak Instamatic, de muito má qualidade, e ficam todas ainda mais escuras que o dia.

Em breve iniciamos a descida. Eu sempre abaixo do Luís, à frente, neste caso. Um breve resvalar teria consequências dramáticas e previsíveis. A meteorologia continua a degradar-se, mas a par de algumas nuvens baixas ou nevoeiro, nada de especial. Não neva nem faz vento especialmente forte. De um modo que nos parece quase rápido chegamos ao refúgio de emergência Vallot.

Entramos de novo naquele pesadelo imundo, agora com o alívio de que é para sair rapidamente. Comemos algo, arrumamos os sacos cama e depressa partimos. Ao abrir de novo a porta, um choque enorme. Começou a nevar intensamente. Não se vê nada. O arranque não tem muito que saber, mas já não se vêem as pegadas do dia anterior, na subida. Em breve a descida começa a alargar para a enorme plataforma anterior ao Dome du Gouter, onde temos de inflectir para a direita e tomar o canal que dá acesso ao Glaciar dos Bossons. Tudo parece igual. Hesitamos, descemos mais uns metros, voltamos a subir, descemos mais um pouco, mas nada.

“Estamos perdidos no meio de nada, da neve a cair, da imensidão gelada. Por dentro, estou em pânico.”

Estamos perdidos no meio de nada, da neve a cair, da imensidão gelada. Por dentro, estou em pânico. Nem bússula, nem GPS, que não existia nesses tempos longínquos. Apenas um mapa 1/50.000, que no meio da tempestade tinha utilidade nula, tal como a visibilidade. Tomamos a decisão rápida de voltar a subir ao Vallot. Subir de novo, enquanto as nossas pegadas são ainda minimamente perceptíveis com esta hora de neve caída, contínua. Subir de novo, quando já pensávamos que agora era só descer. Com o medo vamos arranjar forças sabe-se lá onde (na descarga de adrenalina, provavelmente) e depressa lá chegamos. Pego em alguns mantimentos de emergência, um pouco com remorsos, como se a nossa não fosse uma emergência terrível. Uns quartos de queijo e pouco mais. Pego também num cobertor velho, preto, e coloco-o ao pescoço, por fora da mochila. Voltamos a descer, como muito mais cuidado e atenção. Vou arrancando uns pedaços de 10 ou 15 cm do cobertor e enterro-os na neve, de modo a permitir o nosso regresso ao Vallot se nos perdermos pela segunda vez.

Algumas diminuições de intensidade da queda de neve, algumas melhorias pontuais da visibilidade, muita intuição e alguma sorte e lá começamos a descer o canal correcto de acesso ao glaciar e ao refúgio dos Grands Mullets. Agora a neve acumulou imenso, em pouco mais de uma hora, e enterramo-nos até aos joelhos, por vezes até mais acima. A progressão é muito lenta e penosa. Uma das tácticas para dar com o caminho, pelo menos já no início do canal, foi o sentir o antigo carreiro de subida debaixo dos pés. Quando caminhamos no carreiro do início do glaciar, enterramo-nos só até aos joelhos. Mal saímos do caminho, enterramo-nos até à cintura, uma vez que a neve por baixo não está compactada. Isto quer dizer que damos dois ou três passos e temos de corrigir para o lado. O processo é extremamente penoso e cansativo. Ainda tento alternar com o Luís, mas com ele à frente somos muito mais lentos, uma vez que ele é bem mais baixo do que eu e não tem a mesma amplitude de passada, nem a mesma capacidade de elevar os joelhos fora da neve. Permaneço à frente do caminho, o que me esgota. Ainda assim fico espantado com as minhas capacidades físicas depois de tudo o que já penei. O medo gerado pela situação ajuda a ir buscar forças sabe-se lá onde. Sinto o Luís mais fraco que eu neste prolongamento do dia para além do que seria admissível e humanamente sustentável. O que até aqui não tinha sucedido, com a minha má condição geral. As quantidades de neve caída são imensas e ouvem-se avalanches à nossa volta. Só no dia seguinte nos apercebemos do perigo eminente que elas representam. Hora após hora, baixamos, e finalmente começamos a ter menos acumulação de neve e a conseguir ter uma noção do caminho sem ser por palpação com as botas.

Em breve surge o refúgio e sentimos a salvação perto. Quando entramos, apercebemo-nos de que o guarda está presente e cumprimentamos aquela figura de montanha, que é o primeiro homem que vemos desde o Plan des Aiguilles, quatro dias antes. Ele diz que também nos viu na aresta somital essa manhã e chamou-nos loucos, de subirmos naquela data e com aquelas condições, e sobretudo por termos pernoitado no Vallot. Fez-nos compreender que se a tempestade tem começado 24 horas antes, poderíamos ter tido de esperar o inverno inteiro para de lá sair, ou até um helicóptero Alouette III poder subir a 4.000 metros com condições meteorológicas aceitáveis. Deve ter reparado no nosso ar de fome e deu-nos de jantar. Ajudámos a arrumar e limpar todo o refúgio, que ele iria encerrar para todo o inverno no dia seguinte. Não nos cobrou a dormida nem a comida, o que foi uma surpresa muito agradável. Na manhã seguinte procurou por todo o lado uns crampons de fortuna, só com quatro bicos, para eu aplicar nos calcanhares. Era uma forma de me desenrascar o resto da descida do glaciar, mas não os encontrou e lá tive de percorrer todo o glaciar só com botas nos pés. Agora com uma maior noção do perigo que corria.

A neve continuava a cair, embora com menos intensidade que no dia anterior. Quando se ouvia uma avalanche acima de nós, o guarda/guia de montanha quase entrava em pânico a olhar para cima no meio da tempestade. Nós recordávamos o dia anterior, em que esses sons quase não nos impressionavam, tal era a nossa apatia e o nosso desconhecimento desse perigo eminente, provavelmente o maior que corremos em toda a descida e toda a tempestade. De crevasse em crevasse, lá percorremos todo o Glaciar dos Bossons. No Plan des Aiguilles, apesar do cansaço e da fome, a descida foi feita a pé para Chamonix, tal como os primeiros conquistadores do Monte Branco.

Na cidade, esperava-nos um pequeno luxo: com toda a chuva que aqui caía, mudámos do parque de campismo des Arolles para o sotão do Hotel Chamoniard, com uma tarifa de “amigo”, e com a vantagem de podermos estender todo o material a secar. Uma garrafa de vinho tinto aberta com um piton de gelo tipo saca-rolhas, que ainda guardo, foram os poucos luxos desta recuperação que durou de 5 a 8 de Outubro.

Nesse dia, de novo à boleia até à fronteira próxima de Genéve, para apanharmos o mesmo camião TIR que levou o Luís até Paris, agora com dois penduras. Dia 11 estava em Lisboa, apenas com uma refeição quente em toda a viagem de dois dias. O meu peso estava abaixo de 60 quilos, apesar da minha altura de 1,82 metros. No dia 17, uma semana depois, já tinha recuperado para 61,5 quilos, e a 24 aumentava exponencialmente para 65,5. A comida da mamã e a cama confortável faziam maravilhas.

O nosso clube, na altura, era o Grupo de Montanha do CCL. Algumas pessoas nem acreditavam neste “feito”, uma vez que o Monte Branco era algo de desconhecido, inacessível, e apenas admissível para alpinistas de topo, à nossa limitada vista lusitana da época. Não existia informação, relatos, amigos que já tivessem feito o cume, internet, nada. Foi sobretudo este desbravar de caminho que constituiu o nosso maior “feito”. E para mais, estávamos vivos para contar. Mas passámos mesmo ao lado da morte. Uma notícia publicada no boletim do CCL foi tudo, a nível de imprensa.

Em 20 de Agosto de 1981, volto a subir pela segunda vez o Monte Branco, agora com o meu amigo Manuel João. Correndo o mês de Agosto, pela via normal, centenas de alpinistas sobem ao cume. Acho a escalada irreconhecível, dada a enorme confusão de cordadas e a facilidade das condições meteorológicas, além da segurança que os crampons me concedem. O cume parece agora fácil e quase desprezível, face ao que nos custou dois anos antes. Sei que durante uns anos não voltarei a pisar o cume (na realidade só o farei de novo em 1989).

Passados quase 30 anos sobre essa data de 4 de Outubro de 1979, a ascensão assume agora contornos de loucura épica e irresponsável, mas ainda assim valeu a pena. Mas apenas porque estou vivo.

25 Comentários para “Primeira Ascensão Portuguesa do Monte Branco”

  1. Paulo Baptista Says:

    Incrível, Rogério, não fazia a menor ideia de como a tua ascensão tinha sido tão árdua e perigosa. Os meus parabéns por tudo. Há 30 anos as coisas eram bem diferentes… Parabéns pela coragem e pela ousadia. Paulo

  2. Pedro Robalo Says:

    Sem dúvida que o maior perigo do Alpinismo é a juventude.
    Saudações de um espeleólogo,
    Pedro Robalo

  3. Ana Bela Says:

    Acho que me lembro de vocês.
    Eu era das poucas raparigas a fazer escalada na época, fazia cordada habitualmente com o Cabreira e com o Jorge Matos. Esses tempos eram muito diferentes dos de agora, material era o de espeleo, muitas vezes, até começar a ser comprado algum em espanha. Ainda me lembro quando começaram a aparecer nas mãos do pessoal os entaladores da Petzl e os frends espanhóis, mais baratos que os franceses.
    Bons tempos de aventura pelo prazer exclusivo da aventura e Gredos que saudades.
    Gostei da vossa aventura que me lembro de ouvir contar. É pena não haver fotos.
    Cumprimentos.

  4. Rogério Morais Says:

    Olá Ana Bela
    O material da época era realmente hilariante. Eu e o Cabreira recebemos as primeiras botas de aderência da Boreal, mas isso já foi uns anos depois. O Jorge Matos fez cordada comigo na 1ª ascensão nacional do Cervino de 1982 (e o Paulo Alves com o Pedro Cid). Entaladores Petzl e Friends espanhois foi muito depois, que isso já era um luxo. Nos anos 70 eram cunhas de madeira, marteladas como pitons (e agarravam muito bem), pitons de rocha (alguns “home made”) e fitas de enrolar estores (deviam aguentar pelo menos uns 50 kilos). Cordas de nylon gancheta eram usuais (e pesadas) e os mosquetões de espeleo genuíno aço (nada dessas ligas leves sempre duvidosas, que apareceram depois). Um mundo, portanto.
    Beijinhos para ti e abraços para todos
    Rogério Morais

  5. Pedro Robalo Says:

    Eu comecei na espeleo com o Cabreira e fiz algumas invernais com ele na nossa Serra da Estrela. Nunca mais me esqueci de um corredor do covão do ferro, em que tivemos que voltar para baixo a meio. Claro que o material não era o que é hoje, lembro-me de ter comprado o saco-cama e as botas Kamet (que ainda possuo) numa loja em Vigo na calle cristo.
    Nunca mais o vi, ele ainda escala?
    Cumprimentos

  6. Ana Bela Says:

    Olá Rogério
    Não sei se te lembras de mim era assim loirinha, cabelo comprido…. e um pouco louca e maria-rapaz. Andava bastante por Sintra, Praia da Ursa (ajudei o Jorge e o Cabreira a abrirmos a Via Rosa I) a mais fácil e primeira, muita pedra solta tirei daquela parede, e na Guia, deixei lá muita pele das mãos. Por falares em botas de aderência, ainda tenho as minhas, os meus “pés-de-gato”, apertadas …. Já não me servem claro, já lá vão bem 25 anos, são só uma recordação dos bons velhos tempos. Há muitos, muitos anos que não faço nada de aventuras “radicais” como agora se chamam, mas confesso que ainda tenho o bichinho e umas marchas ainda iam. Lembro-me da aventura do Cervino do Jorge contigo. Acho que estivemos também em Gredos na mesma altura mas desencontrados (81-82), adorei escalar os três Hermanitos. Tens contactos com algum do pessoal dos loucos anos 80? O “pardal”, o Cabreira, …, sabes algo. Perdi há muito o contacto com o pessoal, mas era giro encontrarmo-nos, não achas?
    Talvez a Desnível gostasse de patrocinar um encontro da velha-guarda. Aqui fica o repto.
    Bjos apara ti e para o pessoal da velha guarda que leia este texto.
    Ana

  7. Rogério Morais Says:

    30 anos é muito tempo: o Pardal já morreu, o Cabreira já deve ter enlouquecido de todo (mas também já era louco qb). Mas a tua ideia de juntar malta da velha guarda parece-me excelente. Ainda andam por aí uns quantos, alguns até a escalar :) Eu apadrinho a ideia e ajudo a Desnível a concretizar a coisa. Agora só tens que soltar o bicho que há em ti e voltar à montanha. Eu acho que o ar livre é muito gratificante, qualquer que seja a nossa relação com ele, não necessariamente a escalar. Nós temos actividades para todo o tipo de pernas, embora admita que a Desnível possa ter algumas zonas de enquadramento menos “guarnecidas”. Até tenho feito saídas para os Pirinéus e Alpes com grupos de 10 miúdos de 8 a 12 anos, que os meus filhos gostam de companhia na montanha. Aqui tens o meu mail, e vou colocar o teu nome na mailing list em que costumo divulgar as minhas várias actividades, geralmente para todos os gostos (alta montanha, marcha, BTT, raid’s, etc) rmmorais@refer.pt
    Beijinhos “eightys”

  8. Rogério Morais Says:

    Só agora apareceu e li o comentário do Pedro Robalo. A loja da Calle Cristo era a do Santi (Santiago Suarez Alonso), falecido nos Himalaias. Cheguei a fazer um curso dado por ele, interessante, na casa abrigo do CNM nas Penhas da Saúde, com tanta neve que não se conseguia tirar os carros de lá das Penhas. Na loja geralmente estava a mãe, montanheira da velha guarda galega, de outros tempos, pós Rabada e Navarro. Nunca mais vi o Cabreira. Mas eles andem aí…
    Um abraço. Rogério

  9. Jorge Says:

    Estou a gostar das histórias, vai falando…

  10. Tiago Vicente Says:

    Olá Rogério!

    Estivemos juntos a escalar o Monte Perdido (Pirinéus).

    Gostei de ler o relato dessa tua grande aventura que foi a primeira ascensão do Monte Branco. Gandas malucos!!!!

    Eu, para a semana também vou tentar escalar o Monte Branco, e espero que seja uma viagem e ascenção bem mais fácil e muito menos atribulada que a tua.

    Espero que a montanha nos volte a juntar.

    Um abraço

    Tiago

  11. Rogério Morais Says:

    Olá Tiago
    A esta hora andas por Chamonix, e o tempo ao fim da tarde está manhoso. Desejos de boa actividade e um grande abraço. Até breve.

  12. Mário Ventura (CNM-Norte) Says:

    Olá a todos,

    Estive agora mesmo a ler a descrição da Ascensão ao Monte Branco. Que se perdure e se alimente o espirito que a originou é , em minha opinião, o maior desafio que se apresenta não só a quem por lá passou mas principalmente aos actuais praticantes . Os tempos são outros, mas o mérito é manter intocável a essência que nos leva aos cumes, e que nos traz de volta. Grande Abraço aos Montanheiros. Até Breve.

  13. Rogério Morais Says:

    Neste ano de 2009 cumprem-se 30 anos sobre esta aventura. Luis Fernandes: dá-nos o teu contributo impressionista sobre a nossa ascenção, que seria muito enriquecedor. Um abraço.

  14. Luís Nadkarni Says:

    Fantástica Aventura!
    É sem dúvida um relato impressionante.
    Nessa altura (1979) começava a dar os meus primeiros passos na Escalada em Rocha aqui no Algarve.
    Recordo desses tempos de ter sido assinante da revista “Alpinisme et Randonée” e de ter adquirido na Loja parisiense “Au Vieux Campeur” o “Sentier du Mont Blanc” e um grande poster (foto) que coloquei orgulhosamente na parede do meu quarto.
    Nunca tentei a ascensão do Mont Blanc mas é uma hipótese em aberto.

  15. Rogério Morais Says:

    Se pedirem muito ( e terá de ser a pedido de várias famílias…) eu faço o relato da nossa ascensão ao Cervino / Matterhorn, em 23/08/1982. Querem? Ainda por cima tenho fotos da dita escalada.

  16. SilviaB Says:

    Conta a ascenção ao Matterhorn, gostava muito de ler!! E há já há muito que tenho um fascinio por essa montanha!

  17. Mário Ventura (CNM-Norte) Says:

    Então Rogério, quanto é “pedir muito” ? O pessoal está á espera. Eu já lá andei, mas não se proporcionaram as condições de tempo necessárias para tentar. Não tirei da ideia aínda lá voltar, mas será quase de certeza pela Aresta de Lion.

  18. Rogério Morais Says:

    Bom, bom: já juntei as fotos para o artigo, se bem que tenho um bocado de vergonha das ditas. Calças de ski, que era o que havia na altura, capacete marado, melhor que nada (no Requin levei com um bloco de gelo sem capacete…). Isto até ao Verão deve sair qualquer coisa… Um abraço e obrigado pelo apoio e incentivo:)

  19. Ana Bela Says:

    Olá pessoal

    Olá Rogério
    Se me envias-te emails… não recebi, mudei de email.
    Confesso que estou ansiosa pelo artigo. O Jorge Matos sempre tirou muitas fotos em todo o lado se alguém souber dele, diga.
    Bjos

  20. Rogério Morais Says:

    Já está no blog Desnível a Parte I do artigo sobre a ascensão ao Cervino de 1982. http://adesnivel.blogspot.com/.
    Um abraço

  21. Rogério Morais Says:

    Quarta-feira, dia 7 de Outubro de 2009, vamos ter uma Palestra sobre esta ascensão ao Mont Blanc (de 1979, agora com 30 anos) bem como a actividade de 2009 no Gran Paradiso e Massif des Ecrins. Apareçam que temos Moscatel:)

  22. Zé Pedro Beato Says:

    Grande Rogério, pura nostalgia vintage, o nosso Instrutor de Montanhismo na estrela no âmbito da secção de Montanha do Glorioso. O Rui, O Nuno Ferreira, o Alex, o Poças e mais alguns que não recordo o nome. O eterno Obrigado pela centelha que acendeu e mantem uma paixão pela Montanha. A bandeira do Glorioso ainda esvoaça no cume do Alamanzor – Gredos. Obrigado.

  23. JOSÉ VALENTIM Says:

    Pois é, este nosso amigo ROGÉRIO MORAIS, ainda meu parente, em 1994, fez-me uma grande partida. Como sabia que eu andava de bicicleta, incentivou-me a fazer um Duatlo, nessa altura o Rogério além de Alpinista, era um dos melhores Triatletas Portugueses, lá fui correr pela primeira vez na minha vida no Parque de Monsanto em Lisboa, aliás a experiência não correu muito bem, fui o ultimo classificado. Nessa altura não praticava desporto, estava quase resignado a ser mais um Português obeso. A partir daí, incentivado pelo Rogério, comecei a fazer Duatlos, depois surgiu a Primeira Maratona em Frankfurt, sempre com o Rogério, até que me tornei-me num: ULTRA-MARATONISTA, além de Triatleta, correndo até hoje, mais de 50 Maratonas pelos 4 cantos do Mundo, várias participações em Campeonatos do Mundo de Duatlo, além de 12 Ultras Maratonas no Estrangeiro, tendo até ao momento mais de 120.000 kms feitos entre treinos e competição. Tudo graças ao convite do GRANDE ROGÉRIO MORAIS, um BEM HAJA e que as neves dos HIMALAIAS, SEJAM ALGODÃO NA TUA ASCENSÃO, OBRIGADO.

  24. Rogério Morais Says:

    Pois muito prazer em ver por aqui os meus amigos Zé Pedro Beato e José Valentim. Um abraço aos dois. Até breve.

  25. JOSÉ VALENTIM Says:

    Tudo o que fiz no Desporto Nacional devo-o ao ROGÉRIO MORAIS, tenho milhares de histórias por este mundo fora com ele, vou recordar apenas algumas:
    Andava eu a treinar intensamente para fazer uma grande Maratona em Vienna, lá fui mais o grupo de amigos, onde destaco o Aires São Pedro e o Manel Martins, quando na véspera o Rogério me convida para fazer um treino nas montanhas, que eu não recordo o nome que circundam Vienna na véspera, em boa hora, rejeitei o convite de o acompanhar, saiu sozinho do hotel ás 7 da manhã, com 2 sandes na mochila, apareceu no hotel, quando alguns dos atletas já se encontravam em estágio absoluto a descansar ás 21horas, todo esfarrapado, cheio de fome, no dia seguinte teve que fazer a maratona, 42,195 metros.
    Na Maratona de Praga, estava eu muito bem preparado, aliás acabei por fazer 2h58m, como havia meia maratona a organização na entrega das medalhas pensou que eu fosse um atleta atrasado e entregou-me uma medalha da meia maratona, quando cheguei ao Hotel ao ver a medalha do Rogério, que tinha feito 3H45 mas era muito mais bonita que a que me tinham entregue, o que me passou pela cabeça, troca-la, quando ele deu por isso,começa aos gritos no quarto, partilhado por mim e pelo António Reis, trocaram-me a medalha, quero a minha medalha, quero a minha medalha, perante a insistência, disse-lhe como cheguei no meio do pelotão da meia maratona deram-me uma medalha da meia, lá tive que fazer a troca e fiquei com a medalha meia maratona.
    Numa das várias maratonas efectuadas em Frankfurt, deram-me uma bandeira Portuguesa, no regresso da maratona em Paris para apanhar o comboio para Lisboa, parecíamos 3 aleizadinhos a coxear, eu, o Rogério e o Arsénio Facas, nosso companheiro destas andanças, diz-me o Rogério, queres alugar a bandeira até Lisboa, não consigo andar, e assim o pau serve de bengala, não aceitei, estava mais coxo que ele.

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