por Rui Rosado
O McKinley (6194 m) é uma montanha sub-árctica situada na região sul do Alasca, a uma latitude cerca de 63º norte (o que é 35º ou cerca de 3800km mais a Norte que o Everest). Esta é a mesma latitude que a que se localiza a Escandinávia central ou a tundra siberiana. Esta localização tão a Norte implica que este cume tem, ao longo de todo o ano, um dos climas mais severos encontrado em montanha.
Desde que o McKinley (também chamado de Denali) foi escalado pela primeira vez em 1913, mais de 20 mil escaladores já tentaram atingir o seu topo. Como regra, num ano típico, só cerca de 50 % dos esperados 1200 escaladores anuais logram o cume, outros 100 escaladores sucumbem devido a problemas relacionados com a altitude ou congelamentos e cerca de 12 grandes resgates são necessários anualmente.
Ao longo dos passados quarenta nos de ascensões, a vasta maioria dos escaladores do Denali – aproximadamente 80 % dos escaladores de cada ano – usaram a via WEST BUTRESS como sua rota primária de ascensão. Até à data, esta bonita mas moderada via já viu mais de 400 acidentes envolvendo quedas em crevasses, quedas de escaladores, meteorologia brutal e muitos problemas relacionados com a altitude.
Mais de 35 pessoas morreram ao tentar escalar esta via.
O Serviço Nacional de Parques (NPS) espera que o número de escaladores continue a aumentar, uma vez que o McKinley é a montanha mais alta do norte da América. Faz igualmente parte da lista dos Setes Cumes, uma colecção peculiar de cumes que engloba a montanha mais alta de cada continente.
O fim da época

Estatisticamente os melhores meses para escalar o McKinley são Maio e Junho. Nestes meses o frio mantêm em condições o trilho através do parte mais baixa do Glaciar de Kahiltna e a progressão realiza-se mais rapidamente e com menos esforço e perigo aparentes. Costuma-se escalar até meados de Julho, sendo normal os Rangers abandonarem o Camp 14 000 e campo base ser desmontado no final da primeira semana de Julho, ficando a montanha “vazia”.
A nossa expedição foi agendada para decorrer entre 2 e 22 de Julho, e sabíamos que os 200 escaladores que chegam à montanha semanalmente já não seriam uma realidade para nós. Iríamos estar bem mais sozinhos e contando somente connosco próprios. Mesmo assim, estavam escalando connosco 3 expedições de grupos comerciais, sendo que estávamos 25 almas perdidas naquela montanha.
Fomos o último grupo a entrar para montanha, fechando a época de 2004. Isto acarretou alguns problemas, como as companhias aéreas recusarem-se a voar-nos para o glaciar ou não contarmos com o possível apoio das equipas de resgate que vivem durante os meses de Maio e Junho na montanha ou de um rádio no campo base com alcance suficiente para contactar o aeródromo em Talkeetna. Tornou-se o nosso lema que era o fim da época mas que a época ainda não tinha acabado.
Como chegar à montanha

Para escalar o Denali, o primeiro passo é chegar até Anchorage (Alasca), sendo o avião o meio mais óbvio de transporte. Nesta cidade sem nenhum encanto em particular, há que fazer o abastecimento de mantimentos. Existem vários hipermercados com tudo o que poderemos precisar. Daqui há que seguir de carro ou comboio até Talkeetna. Esta aldeia, situada nas faldas do McKinley, será a nossa base e ponto de partida para a aventura nesta grande cadeia montanhosa.
Para fazer face ao problema do crescente número de escaladores, o NPS impôs regras e restrições no acesso à montanha, de forma a zelar pela segurança dos escaladores e a garantir a qualidade do meio ambiente. Assim, o NPS construiu uma posto de atendimento em Talkeetna para o qual os escaladores têm que enviar um formulário preenchido e assinado como um mínimo de 60 dias anteriores à ascensão e ao qual têm que se dirigir quando lá chegarem. Existe ainda uma taxa de 150 USD por pessoa a pagar para se poder ter acesso à montanha; passar por um briefing aonde se vê uma sessão de powerpoint sobre a via, se retiram dúvidas e os rangers se certificam de que dispomos dos conhecimentos e equipamento necessário para a ascensão; e por último somos obrigados a levar a CAN. Um pequeno contentor de plástico no qual teremos que transportar as nossas fezes de volta para a civilização.
De referir, que apesar de tantas formalidades e aparentes entraves, os rangers da estação de Talkeetna são no fundo montanheiros tal como nós e estão lá para nos ajudar. Podemos perguntar tudo o que não sabemos ou que não temos certeza e a resposta vem sempre na óptica do praticante não da autoridade.
Voar para o Glaciar

Após obter o papel de autorização do NPS há que obter um voo para o glaciar de Kahiltna. Para tal existem cerca de 7 companhias aéreas para o efeito.
Aconselho-te a Talkeetna Air Táxi, porque é a que fica mais perto do hostel e a que tudo faz para fazer os escaladores felizes (podes mesmo pedir-lhes para te levarem pizza quente e cerveja fria). A nós levou-nos até ao glaciar quando outras companhias se recusaram porque havia uma crevasse cada vez mais larga no meio da pista e foram-nos buscar no fim com uma neve mole e húmida na qual eu nunca imaginei ser possível aterrar.
É uma experiência única, andar numa avião tão pequeno como aqueles, com os patins para aterrar na neve e tu sentado de auriculares como se fosses um co-piloto, sobrevoando cadeias montanhosas com glaciares de 60 milhas que se espreguiçam vale abaixo. As condições da meteorológicas influenciam muito os voos e pode acontecer ficarmos retidos vários dias à espera para voar para a montanha ou pior da montanha para Talkeetna. É obrigatório levar reservas de comida para mais 5 dias caso o tempo esteja muito mau, bem como é muito aconselhável ter um rádio (122.70 MHz). As companhias aéreas alugam-nos a $ 5 ao dia.
Escalar a Montanha

Escalar o McKinley pela West Butress é sobretudo uma grande aventura de logística e de organização. Há que preparar um vasto número de coisas. A comida por exemplo tem que ser dividida por dias, contando-se com os dias reais de ascensão e os hipotéticos dias de mau tempo. Como é um percurso de ida e volta não é necessário transportar toda a comida para cima e depois toda a comida para baixo. Fazem-se depósitos (Catchs) ao longo do caminho aonde deixamos comida, combustível e equipamento que deixamos de precisar (ex. os esquis).
Poderíamos dividir a ascensão em quatro fases:
- 2200m aos 3300m – Kahiltna base camp ao Kahiltna Pass
- 3300m aos 4300m – Kahiltna Pass ao 14 000 Camp
- 4300m aos 5200m – 14 000 Camp ao High Camp
- 4500m ao cume – High Camp ao Summit.
Cada uma das fases implicou estratégias e equipamentos diferentes, tendo-se começado por avançar ao longo de 12 km de glaciar encordoados com esquis e trenós, carregando uma carga entre os 30 e os 40 kg por pessoa. Uma verdadeira aventura para quem possui esquis de travessia há menos de um ano e nunca havia trabalhado com trenós.
Seguiu-se outro momento em que progredimos somente com um trenó e de crampons, devido à inclinação do terreno e à presença de muito gelo vivo que não permitia a aderência das peles de focas dos esquis. O trenó acabou por ser igualmente guardado e prosseguiu-se somente com as mochilas de expedição (60 a 90 litros) através de pendentes de 45º equipadas com cordas fixas e arestas aéreas e espectaculares.
No dia do cume o equipamento foi eliminado ao mínimo essencial tendo-se levado uma única mochila com os casacos gore-tex e um par de luvas extra por cada, algumas barras proteicas energéticas e frutos secos, 2 litros de chá, um mini-estojo de primeiro socorros, piolets, bastões e alguns equipamento de protecção para neve e gelo (estacas e parafusos de gelo) e é claro a máquina fotográfica.
A nossa ascensão

A nossa ascensão decorreu sobre uma janela de bom tempo, tendo sido bafejados por uma alta pressão que se manteve durante quase todos os dias, permitindo dias muito quentes e sem muito vento. Mesmo assim ficamos parados um dia na subida e outro na descida, devido a ventos muitos fortes e queda de neve. A pressão atmosférica nesta latitude é ainda mais baixa que o usual é os problemas com a aclimatação costumam ser mais forte e frequentes aqui. No entanto e seguindo um plano de repousar um dia a cada 1000 metros escalados e beber um mínimo de 3 litros de líquidos, não sentimos problemas de maior. Somente sentíamos enormes dificuldades em adormecer devido ao facto de não cair a noite (há luz durante as 24 horas do dia).
A via de ascensão está muito bem marcada e não oferece problemas de orientação (obviamente com bom tempo), mesmo assim não hesitamos em utilizar um aparelho GPS e marcar vários waypoints para garantir que não saimos do trilho certo.
O dia de cume, foi precedido por dois dias de stress, pois as nuvens no céu indiciavam uma pioria gradual do tempo e nós ainda não estávamos com aclimatação adequada para atacar o cume. Foi um dia grande e frio, que só começou as 6h da manhã com a preparação de líquidos quentes e a tomada do pequeno almoço. Saímos da tenda às 9h com a chegada o sol iniciando a ascensão de imediato.
O frio e o vento não permitiam grandes paragens para descansar e os pés passaram o dia inteiro muito frios (as mãos foram aquecidas com hand-warmers). O cume foi alcançado às 16h30 aproveitando-se para se tirar as fotos da praxe, sendo a paisagem banhada por um ar de nuvens baixas que ocultavam os vales e nuvens estratosféricas que anunciavam a vinda de ventos fortes de sudoeste.
A descida de regresso ao ponto de recolha pelo avião foi de facto mais difícil que a própria ascensão em si, primeiro devido a uma enorme tempestade que nos impossibilitou de descer durante um dia e depois a um glaciar que parecia um labirinto de crevasses e pontes de neve instáveis que ainda deram direito a algumas quedas e sustos. Este último dia em que pensávamos descer o glaciar em 2 a 3 horas demorou-nos 9 horas a ultrapassar. Foi um dia muito cansativo que fez saber ainda melhor a pizza e as coca-colas que bebemos 24 horas depois em Talkeetna após um banho que tirou a sujidade acumulada ao longo de 15 dias.
Esta expedição contou com o apoio das seguintes entidades, a quem agradecemos:




Nota do Editor: Este artigo foi originalmente publicado a 29 de Julho de 2004.





