Procedimentos de Emergência para Grupos em Actividades de Ar Livre
Foto: Portugal XPD RACE
por Rui Rosado
Nota do Autor: Este texto foi redigido tendo por base o manual NOLS Wilderness First Aid por Tod Schimelpfenig e Linda Lindsey, NOLS e Stackpole Books, 1991 Wyoming USA. E o manual Efective Leadership in adventure Programing por Simon Priest e Michael A. Gass Human Kinetics 1997 USA.
Recuerda: la técnica de autorescate más importante que existe es la capacidad de evitar que sea necesario un rescate[1].
Raffan[2] (1984) descreve a gestão da segurança de um monitor de ar livre comparando-a a uma slot machine. De cada vez que se leva um grupo para uma actividade de ar livre a slot machine gira e mostra um ou dois limões na forma de perigos. Quando um número suficiente de perigos se acumulam – e não se prestou a devida atenção a estes limões – o Jackpot sai-nos na forma de um acidente.
Quando falamos em procedimentos de segurança, inevitavelmente argumentamos que está é ditada pelo nosso senso comum ou de montanha. Ora este advém da nossa experiência ou experiências, num saber que poderemos apelidar de empírico. Conforme agimos de forma ajuizada ou irresponsável, de forma morosa ou rápida, planeada ou irreflectida, conforme somos bem ou mal sucedidos, vamos avaliando a nossa forma de actuação e adaptando esta às circunstâncias, num processo de causa efeito cujo resultado pode nem sempre ser agradável. Ainda que o método de aprendizagem mais eficaz seja o de aprender fazendo, há que fazer ou experimentar segundo uma linha que nos permita total liberdade mas que ao mesmo tempo salvaguarde a nossa integridade física bem como a daqueles que nos acompanham ou que possam intervir de qualquer forma neste processo.
O objectivo deste artigo não é o de descrever modos de actuação para as diversas situações de emergência das várias áreas de actividades de ar livre, mas antes facultar, a quem realiza este tipo de actividades, algumas linhas orientadoras que se devem conhecer em relação a protocolos e procedimentos de segurança para situações de emergência.
Teoria do Acidente
Genericamente, a maioria dos acidentes ocorre quando dois tipos de perigos, humanos (subjectivos) e ambientais (objectivos), se combinam ou interagem ao mesmo tempo criando um potencial de acidente. O potencial de acidente é a possibilidade ou o risco de que um acidente venha a acontecer. Um alto risco de acidente potencial não significa que um acidente ocorra, somente que a sua probabilidade aumenta. A probabilidade é altamente influenciada pela relativa força e número de perigos presentes e igualmente pelas contra-medidas pro-activas, activas e reactivas que se tomam. Como não é possível conhecer com exactidão estas probabilidades, o conhecimento destes factores e o julgamento baseado neste conhecimento pode ajudar a avaliar com mais rigor, ainda que subjectivamente, o risco potencial.
Classificação de Perigos
Podemos tipificar o perigo em dois categorias: elemento (factor ou causa) e conjectura. Os elementos de perigo são as fontes de ferimento ou de perca, por exemplo um relâmpago (descarga eléctrica). As conjecturas são condições que acentuam ou influenciam a hipótese de ocorrência de um ferimento ou de perca, por exemplo uma trovoada. A presença de perigo, quer seja uma causa ou uma conjectura, aumenta o risco. Por exemplo o perigo de uma pessoa ser electrocutada é criada por dois perigos: a presença de uma trovoada (conjectura) que aumenta a probabilidade de um raio (causa) atingir uma pessoa.
Conhecendo as diferenças entre causas e conjecturas e sendo capaz de as identificar no terreno, podem-se diminuir as hipóteses de riscos desnecessários. Por exemplo, a travessia de um glaciar para se atingir um cume. Nos glaciares existem zonas de crevasses e de seracs que são óbvios elementos de perigo. A acção lógica será a de evitar a zona do glaciar aonde estes se encontram. No entanto por vezes a nossa rota atravessa zonas como estas, pelo que é de todo impossível evitar estes perigos. Neste caso, devemos lidar com esta situação de uma maneira segura, considerando a conjectura associada aos elementos de perigo.
A temperatura, que varia consoante a hora do dia, o sol e outras condições climatéricas é uma conjectura que aumenta a probabilidade de movimentos de blocos de gelo à medidas que estes vão aquecendo. Os alpinistas experientes evitam o risco de sofrerem um acidente devido ao movimento do gelo escolhendo a hora correcta para se defrontarem com estes elementos – quando a conjectura de perigos é mínima. A prática comum sugere que se comece a ascensão a meio da noite, com os frontais na cabeça, que se atinja o cume pela madrugada e que se esteja de volta ao campo base a meio do dia – antes da subida da temperatura. No calor da tarde os alpinistas podem aproveitar para relaxar, comer uma boa refeição, enquanto observam a uma distância segura o glaciar a derreter e a mover-se, sabendo que reduziram a probabilidade dos perigos encarando apropriadamente a conjectura e os seus diversos elementos. Resumindo os elementos de perigo sempre estarão presentes nas actividades de aventura. Sabendo como e quando estes condicionam a conjectura pode ajudar-nos a reduzir cumulativamente os perigos em ambos os lados da equação do acidente.
Análise de Perigos
Vimos como se procede em relação aos factores e às conjecturas de perigo no caso de derretimento de gelo, mas como generalizamos a análise dos perigos deste caso específico para outras situações. Utilizando o seguinte procedimento de 10 passos para a Análise de Perigos, que permite reduzir a chance de que estes nos aconteçam, ou no caso de acontecerem, que nos permita minimizar as suas consequências para níveis aceitáveis e ou recuperáveis.
- Planear antecipadamente;
- Identificar os perigos;
- Chamar atenção para os perigos;
- Remover os perigos;
- Evitar os perigos;
- Defrontar os perigos;
- Avaliar o risco de ocorrer um acidente (humano/subjectivo ou ambiental/objectivo);
- Estimar a probabilidade de perda (número e força);
- Justificar a perda/risco de vida (aceitável e ou recuperável);
- Proceder com extrema precaução.
- Planear antecipadamente
Admitir que um acidente nos pode realmente acontecer! A questão não é se, mas antes quando. A solução é estar sempre pronto para dar respostas aos diversos problemas que nos podem acontecer, e adoptar uma postura humilde enquanto monitores. Planear antecipadamente é essencial. Saber como agir perante cada acidente potencial antes de ele acontecer.
Identificar os perigos
Procurar identificar os perigos de uma forma permanente ou continua. Permanecer vigilante em relação aos possíveis perigos em toda e qualquer situação. Perguntar-se permanentemente “E se” – Adoptar sempre a acção correcta para lidar com os perigos.
Destacar a atenção para os perigos
Uma vez identificados os perigos, chamar a atenção dos colegas e clientes sobre estes. Nos perigos de factor humano podemos reduzir as probabilidades de um acidente potencial chamando a atenção sobre este e conduzindo os participantes a uma mudança de comportamento.
Remoção do perigo
Se apropriado, remover elementos que contribuam para situações de perigo.
Se chamar a atenção sobre o perigo não é o suficiente para resolver o problema, considere-se a hipótese de removê-lo, desde que esta acção não aumente o risco ou origine outras situações perigosas.
Evitar situações perigosas
Se não é possível remover o perigo, então a melhor solução é tentar evitá-lo. Esta atitude pode passar por alterar, reorientar, modificar, adoptar um novo plano, cancelar ou abortar uma actividade. Note-se que o encontro com situações perigosas é ocasionalmente necessário e às vezes desejável. Para além da óbvia procura de perigos pelos aventureiros, como meio de se porem à prova, o encontro com este tipo de situações potencialmente perigosas pode ter os seus aspectos positivos. No entanto não esquecer que estas experiências podem ser positivas desde que não se combinem dois ou mais factores de risco na mesma “equação”.
Identificar e classificar situações de perigo
Se não é possível remover ou evitar os perigos, o mais certo será ter que os enfrentar. Logo torna-se necessário classificá-los ou como elementos (origem de dano ou perca) ou como conjectura (condições que influenciam a probabilidade de dano ou perca). Esta classificação permite-nos enfrentar os perigos quando factores da conjectura são mínimos, desta forma reduzindo o risco de acidente.
Avaliar o risco e reclassificar o perigo
Se não se pode evitar o perigo, então devemos avaliar o risco de um acidente potencial. De seguida reclassificaremos o risco ou como ambiental – baseado no espaço circundante, ou como humano – baseado no grupo. Esta reclassificação permite-nos reconhecer se o potencial de sobreposição das duas forças e se o risco de um acidente existem.
Estimar os potenciais danos ou perdas
Se a combinação de perigos ambientais e humanos parecer eminente, estimar a probabilidade de danos ou perdas. Relembrar que quanto mais numerosos e fortes forem os perigos, maiores são as probabilidades de um acidente ocorrer. Logo devemos identificar e avaliar o numero e a força dos perigos nas categorias ambiental e humana. Números absolutos não significam necessariamente que os acidentes sejam igualmente proporcionais – somente que quanto mais perigos presentes, mais as combinações entre estes perigos existem e maiores as possibilidades de um acidente ocorrer.
Minimizar os danos ou perdas
Se o risco de um acidente parecer provável mas no entanto não uma certeza absoluta, escolher uma linha de actuação de que cujo resultado de um acidente seja aceitável e recuperável. Se na montanha formos apanhados por uma trovoada que ponha em perigo a vida dos escaladores, se ao abandonar o material de escalada metálico diminuímos as hipóteses de sermos atingidos por um relâmpago, abandonemos então este material o qual recuperaremos noutra altura, aceitando o facto de a perda possa ser meramente financeira e não mais cara do que isso.
Fazer ajustamentos apropriados
Se o resultado de uma perda for por exemplo um acidente com ferimentos, executar ajustamentos pré-planeados e apropriados (p. ex.: socorro e evacuação). Para se alcançar isto tem que se pré-planear. Decida quais as suas contra-medidas para acidentes com ferimentos, antes da ocorrência dos mesmos. Uma vez estas postas em prática, proceda com extrema precaução, continuando a procurar novos perigos que possam surgir e combine-os com os já existentes.
Factores de Inibição da Analise
Existem seis factores que podem inibir a análise da condição de perigo. Estes factores de inibição são situações novas ou inesperadas, atribuições inapropriadas, falta de concentração, pressa em regressar, fenómeno de mudança para atitudes de risco, julgamentos pobres ou erróneos.
1 – Situações novas e ou inesperadas
Significa que provavelmente não se conseguirá responder de forma adequada a situações com as quais não tivemos contacto ou experiência. Um bom exemplo é o de utilizar um percurso ou liderar grupos pela primeira vez ou ainda realizar actividades em novas instalações ou terrenos. A importância dos reconhecimentos antes da realização das actividades é a de que estes contribuem para o decréscimo das hipóteses de surpresas durante o decorrer das mesmas.
2 – Atribuições inapropriadas
Atribuições inapropriadas refere-se à tendência de certos monitores de tomar o crédito por acções bem sucedidas, atribuindo este sucesso às suas competências pessoais; e a atribuir a culpa dos insucessos a outros ou outras coisas, por exemplo as más condições climatéricas ou ao mau equipamento. Este comportamento acontece frequentemente devido a orgulho exagerado, da necessidade de agradar a terceiros, de querer ficar bem visto ou do desejo de viver segundo determinadas expectativas. Mas atenção, porque este comportamento leva-nos a negligenciar o primeiro passo dos procedimentos de análise de riscos: aceitar que os acidentes também nos podem acontecer.
3 – Falta de concentração
A desconcentração surge em monitores que baixam a sua guarda devido a fadiga, distracção ou falta de cuidado. Baixando a guarda cessa a procura constante de perigos e não se está suficientemente alerta para se agir com precaução. Este tipo de comportamento é frequentemente observado em grupos a regressar de uma ascensão, ou quando o escalador atingiu o topo da via e está a descer é comum o assegurador descuidar a sua atenção. Ou seja, após as situações de stress ou de dificuldade envolvidas nas actividades toma-se a percepção errada de que o perigo acabou e a nossa desatenção origina frequentemente acidentes. Ocorrem mais acidentes a rapelar de vias de dificuldade do que propriamente acidentes com causa na própria dificuldade das mesmas.
4 – Pressa em regressar
Sentir o cheiro do celeiro e ter pressa em chegar é um comportamento comum entre cavalos e monitores. Quando se tenta recuperar tempo de um horário que está irremediavelmente atrasado ou quando o fim está já à vista, tem-se a tendência para deixar de chamar a atenção para perigos que em situações normais se faria um esforço maior para evidenciar, remover ou evitar. Perante o desejo veemente de regressar a casa para um duche quente ou a uma boa refeição, há que resistir à tentação de tornar este objectivo mais importante que a segurança.
5 – Fenómeno de mudança para comportamentos de risco
Este fenómeno ocorre quando num grupo existem pessoas (normalmente inexperientes), que adoptam comportamentos mais arriscados do que os que teriam se se encontrassem sozinhas nas mesmas condições. Membros novos adoptam este comportamento quando estão relutantes em expressar os seus medos, especialmente quando a coragem é socialmente desejável. Ou naqueles que transferem a sua responsabilidade pessoal perante os riscos para outros, pensando que assim aumentam o seu nível de segurança ou o do grupo, e geralmente sem informar o monitor desta sua decisão. Quando isto acontece, podemos descobrir que o grupo está a tomar decisões que de facto não quer seguir, porque ninguém gosta de parecer covarde perante os outros e muitos são relutantes em admitir que se encontram em situações que estão para além dos seus limites pessoais. Como monitores temos que estar conscientes desta possibilidade, especialmente quando existem focos de tensão dentro do grupo.
6 – Julgamentos pobres ou erróneos
Julgamentos pouco fundamentados ou errados inibem muitos factores da monitorização de actividades, e a segurança não é excepção. Este tipo de julgamentos errados são frequentes em situações nas quais não nos apercebemos do que se está realmente a passar. Tal falta de percepção leva-nos a estimar mal situações de perca ou dano, ou a avaliar mal o real valor desta perca posteriormente numa situação de quotidiano. Uma vez que “o bom julgamento” é vital neste tipo de actividade, convém manter uma análise e avaliação constante aos nossos julgamentos. Ao fazermos a nossa auto-avaliação à que tomar em conta a opinião sincera e honesta de outros colegas. Ainda que este método possa ser algo ameaçador em termos profissionais ou pessoais, pode contribuir muito para a tomada de decisões correctas. Aproveita pois para discutir em pequenos grupos com outros monitores situações de risco passadas, casos épicos e erros embaraçantes, sem medo de ser criticado ou admoestado por pessoas hierarquicamente superiores.
Contra-medidas de Segurança
Apesar de uma minuciosa análise de perigos e de se tomar atenção aos factores que podem inibir o nosso julgamento, os acidentes podem acontecer e acontecem-nos! No caso de um acidente nos acontecer, uma sequência de contra-medidas pode provar-se muito útil de forma a minimizar as consequências deste mesmo acidente. Podemos dividir as contra-medidas de segurança para acidentes em três categorias, conforme a linha temporal da sua aplicação: primárias ou pro-activas, activas ou secundárias e reactivas ou terciárias.
Contra-medidas pro-activas ou primárias
Este tipo de medida sugere que se pratiquem todos os tipos de medidas a tomar em caso de acidente ou ao menos que se prepare uma resposta adequada às eventualidades. Exemplos de medidas preventivas são as inspecções ao equipamento, briefings de segurança, treino dos monitores, revisão de perigos humanos e ambientais potenciais ou inspecção atenta do estado de saúde dos clientes ou participantes.
Contra-medidas activas ou secundárias
São todas as medidas tomadas durante o programa ou actividade, geralmente resultantes de um acidente. Exemplos de medidas de resposta ou activas são o primeiro socorro, busca e salvamento, evacuação ou registo no local dos dados dos ferimentos dos acidentados.
Contra-medidas reactivas ou terciárias
São todas as medidas tomadas após o acidente. Tais como informar familiares ou pessoas intimas da vítima e a organização promotora do ocorrido, preenchimento de documentação relativa ao acidente para posterior análise e para companhias de seguros ou marcação de visitas ao acidentado no hospital ou em sua casa.
Competências pessoais de segurança do monitor
Por último, os monitores devem procurar aumentar ou ganhar conhecimentos em áreas que têm um papel importante nas questões relativas à segurança e que se revejam no tipo de actividades que enquadram. Exemplos destes tipos de competências são a interpretação meteorológica, regulação da temperatura corporal, orientação e navegação, sobrevivência, curso de nadador salvador, curso de primeiros socorros, busca e salvamento, evacuação ou regaste.
[1] Citação do prefácio do manual Autorrescate – Manuales Desnivel, David J. Fasulo,Ediciones Desnivel, Madrid 1998.
[2] Raffan, J. (1984). Images For Crises Management. The Journal of Experiential Education 7(3), 6-10.
Nota do Editor: Este artigo foi originalmente publicado a 2 de Dezembro de 2002.




Segunda-feira, 25 Agosto, 2008 at 11:17
Excelênte Artigo Rui
Não podia estar mais de acordo mesmo nos conceitos.
Um abraço.
http://susf.portugal.googlepages.com/home
Domingo, 21 Dezembro, 2008 at 22:37
Muito bom.
Este artigo mostra como é importante saber avaliar e tomar decisões, afim de minimizar os riscos inerentes a pratica do esporte.
Me fez refletir muito sobre o assunto.
Vou recomendar para meus companheiros de escalada aqui do Brasil.
Um abraço.