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Gasherbrum I e II – Duas Tentativas

“Deixámos para trás dois meses de fantásticas aventuras, de bonitas escaladas, de aprendizagens, de pessoas interessantes, de culturas diferentes, de risos, medos, de tantas e tão intensas sensações que é difícil transmitir…”

Daniela Teixeira

Desde dia 3 de Junho de 2008 pudemos acompanhar pelo seu diário a aventura da Daniela Teixeira e do Paulo Roxo na tentativa de ascensão ao Gasherbrum I, a 11ª montanha mais alta do mundo, com 8068m. Este não é o primeiro diário de expedições portuguesas nos Himalaias, e como todos os relatos de aventuras que nós próprios gostaríamos de viver deixa-nos sempre expectantes pelo “próximo episódio”, por vezes com o coração nas mãos ou ansiosos nos tempos de silêncio.

Ao acompanhar a expedição da Daniela e do Paulo passamos a conhecer não só a sua aventura, mas também o ambiente no Campo Base. Em todo o relato transparece o convívio entre as expedições, a entreajuda, a disponibilidade imediata e colaboração, que são parte importante desta história e da história do montanhismo no geral.

Ainda que fazer cume seja usualmente sinónimo de objectivo atingido, não se pode negar o sucesso da expedição.

Ainda que fazer cume seja usualmente sinónimo de objectivo atingido, não se pode negar o sucesso da expedição. Marcada por desistências e insistências, ascensões e retiradas indesejadas e pela pureza de tentarem evitar a facilidade das cordas fixas esta expedição faz-nos recordar qualquer outra da época de ouro do alpinismo.

A vontade de fazer cume esteve sempre presente, daí que tenham alterado por diversas vezes os planos: uma tentativa de cume ao Gasherbrum I e outras duas ao Gasherbrum II, sendo a última delas a mais emocionante e aquela em que se encontraram mais perto de atingir o cume, tendo chegado ao Campo 4. Nesta última ascensão, as condições do terreno e o cansaço acumulado ao longo dos dias não ajudaram, e a prudência e a sensatez falaram mais alto, de forma que decidiram regressar ao Campo Base, quando se encontravam apenas a cerca de 600m do cume. Ainda assim, as suas resistências físicas e morais foram postas à prova até ao último instante.

Um dos momentos mais emocionantes dá-se repentinamente aos 7400m. O Paulo preparava-se para rapelar uma secção de gelo vertical quando a corda se parte largando-o para uma queda de 30 metros. Relatada pelos dois, conseguimos ter visões diferentes do mesmo acidente: por um lado a visão objectiva de quem cai e cujo único desejo é agarrar-se de novo à vida, e por outro a visão emocionada da Daniela, com lágrimas, pânico, medo, desespero, angústia e, finalmente, alívio.

Com este episódio a montanha mostrou uma nova face – já não é o manto de neve branca e natalícia, nem espectáculos inesquecíveis de neves rodopiantes; é agora um gigante cruel, impávido e sereno. A beleza imponente da montanha, transforma-se num peso gigantesco que se sobrepõe dramaticamente à condição humana.

No entanto, muito do tempo da expedição acima dos 5000m do Campo Base (quase dois meses) é passado à espera do bom tempo. É uma espécie de tempo morto com vida, pontuado de almoços e jantares com as outras expedições, cerimónias religiosas, música e dança. Outras vezes é estar simplesmente fechado na tenda a tentar descansar e preparar o corpo e o espírito para uma nova tentativa de cume, enquanto lá fora o vento e a neve parecem querer negar essa hipótese.

Durante a espera, ciclos de vida e morte desenrolam-se à nossa frente: ou é a cabrinha que os acompanha até ao Campo Base, para se tornar a refeição principal; ou são as notícias de acidentes graves com outras expedições. E no meio de tudo isto há sempre o deslumbramento permanente com a paisagem imponente que os rodeia.

por Marta Brites Rosa.

2 Comments for this entry

  • SilviaB diz:

    E é certamente um sucesso de empenho, determinação, dedicação e esforço e espirito de desafio e conquista! Gostei muito das descrições do texto acima escrito bem ilustrativas da grande aventura nessas montanhas imponentes e apaixonantes, que para alguns, tal como eu, nunca passará de um sonho distante… Votos de boa sorte ás expedições portuguesas que de tão pequeno país nasce tão grande espirito de aventura! :)

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