Associação Desnível

Associação de Desportos de Aventura Desnivel

Entidade sem fins lucrativos, com Estatuto de Utilidade Pública

Lobo Ibérico

Se há alguns anos atrás o lobo era visto como uma espécie perigosa (personificado no Lobo Mau das histórias da nossa infância), nos dias de hoje a sua imagem tem sido limpa e hoje é tido mais como um animal a proteger e preservar que como o ladrão de galinhas ou possível atacante.

Naturalmente, esta alteração na postura que temos em relação ao lobo reflecte o lugar onde nos encontramos: por um lado, a maior parte de nós já não cria galinhas; por outro, sabe-se que a vulnerabilidade do lobo é muito maior que a sua ferocidade.

Onde se encontra?

O lobo ibérico, de pele cinzenta e um pouco mais pequeno que algumas espécies, habitava ainda no séc. XIX toda a Península Ibérica, mas neste momento a área está confinada ao noroeste da Península, a uma pequena região a sul do rio Douro e ainda ao sul interior de Espanha, em Sierra Morena.

Em Portugal a área que habita é cerca de 20 000 km2 – na região fronteiriça dos distritos de Viana do Castelo e de Braga, província de Trás-os-Montes e parte dos distritos de Aveiro, Viseu e Guarda. Esta área divide-se em duas zonas: uma a norte do Rio Douro com uma população contínua e cerca de 50 alcateias e outra, isolada, a sul do Douro, com 10 alcateias e com futuro incerto. No total existem cerca de 300 lobos em território nacional.

A extinção

As causas para a redução da população lupina estão relacionadas com a intromissão humana no seu ambiente, não só através da caça ao lobo movida pela crença generalizada de que o lobo ataca o homem e os animais domésticos; mas também pela caça aos animais que lhe serviam de alimento. Esta escassez de presas naturais leva a que, de facto, os lobos por vezes ataquem os animais domésticos, reforçando a perseguição humana a esta espécie. No entanto, em áreas onde as presas naturais abundam, os prejuízos provocados pelo lobo no gado são quase inexistentes.

Em relação ao ataque a humanos, existe apenas uma informação comprovada, que se refere a um animal com raiva.

Como se vê, as razões para possível extinção do lobo são variadas, mas todas estão de alguma forma ligadas à acção humana.

  • caça (actualmente proibida);
  • destruição da vegetação nativa;
  • construção de grandes infra-estruturas, como auto-estradas, que fragmentam os habitats;
  • diminuição do número de presas naturais do lobo, como o javali, o corço e o veado;
  • conflito com as populações rurais (os lobos a atacam animais domésticos por falta de presas naturais).

A preservação

Em Portugal o lobo é considerado uma espécie em perigo, sendo proibida a sua caça e a destruição do seu habitat natural. Com o desejo e objectivo de preservar o lobo e de o conhecer foram criados vários grupos, associações e outras instituições. Uma delas é o CRLI, onde 12 lobos são tratados em cativeiro ao ar livre, podendo ser visitados por qualquer pessoa.

Existe igualmente a Associação de Conservação do Habitat do Lobo Ibérico nas Serras da Freita, Arada e Montemuro, que pretende contribuir para a preservação das áreas sensíveis e da paisagem natural e, em especial, para a conservação do habitat do Lobo Ibérico daquela região.

A sobrevivência do lodo depende de vários factores, que implicam uma actuação generalizada em várias frentes.

  • provisão de refúgios adequados;
  • reinserção da alimentação natural no habitat (corços, veados e javalis);
  • educação e compreensão das populações, nomeadamente pastores, para os ataques de lobos ao gado (sendo os pastores indemnizados, sempre que o ataque seja comprovadamente atribuído ao lobo);
  • criação de novas infra-estruturas que tenham em conta a sua existência (por exemplo, no caso das auto-estradas, passagens superiores ou túneis que aumentem a permeabilidade a esta e outras espécies);
  • preservação do habitat do lobo.

No CRLI existe a possibilidade de “adoptar” um lobo, ou seja, através de um donativo anual contribuir para a sua alimentação e manutenção do Centro.

É uma iniciativa louvável, mas não deixa de ser irónico que uma espécie temida antigamente pelo Homem e à volta da qual surgiram mitos e lendas sobre a sua ferocidade necessite agora da sua protecção.

por Marta Brites Rosa

Foto: MilouskaBlog

13 Comments for this entry

  • Rogério Morais diz:

    Comecei as minhas primeiras travessias do Gerês e da Peneda em 1978. O meu companheiro inseparável destas marchas, geralmente com galochas nos pés (Pro…) por causa da chuva abundante, era invariavelmente o Pedro Cid, a que se juntavam amigos ocasionais, do Barreiro, do CNM, etc.

    Da nossa mochila de travessia (10 kg eu e 4 kg o Pedro!!!), fazia sempre parte isqueiro e bombas de carnaval das grandes, por causa dos Lobos. Uma das Marchas durou 17 dias e percorreu toda a fronteira Norte de Portugal, da serra Amarela até Montesinho.

    As minas dos Carris eram um ponto de passagem e dormida obrigatória. O guarda das minas, ao cair da noite, recolhia sempre os seus cães, enfezados e esfomeados, porque senão os lobos chamavam-lhes sobremesa.

    Outros tempos, outras densidades de lobos em Portugal. Acreditem que depois de montar a tenda, as bombas de carnaval e o isqueiro ficavam sempre bem à mão, e até um inútil canivete Opinel… A noite, a montanha, os lobos e o medo andavam sempre de mão dada, todos muito calados.

  • SilviaMB diz:

    Consta que o Lobo também ainda existia pela Beira Baixa e Alto Alentejo, nas zonas mais serranas destas regiões, ainda no início do Sec XX. Ás suas populações terão sofrido baixas cosideráveis nestas regiões, de onde possivelmente desapareceram quase ou mesmo por completo.

  • Rogério Morais diz:

    É verdade o que diz a Sílvia, pelo menos no que diz respeito à Beira Baixa: a zona de Idanha e as encostas sul da Estrela, terão sido das últimas a ter lobos, no início do séc.XX. Curiosamente, hà meia dúzia de anos, surgiu um boato, com ampla cobertura televisiva, sobre a posibilidade de existência de um lobo velho, transviado do seu circuito habitual, nas planícies de Idanha-a-Nova. Era também colocada a hipótese de ser um “chota-cabras”, seja lá o que isso for, mas que é uma figura meio “fantástica” do imaginário popular da zona. Aparte duas ou 3 cabras meio comidas, meio esventradas, o Chota-cabras deixou de dar sinal de vida, e é bem provável que fosse um par de cães esfomeados e vadios. Embora não tenha informação actualizada, mas ainda recentemente a alcateia de Vila Nova de Tázem, em plena região demarcada do Dão e a 10 km da encosta norte da serra da Estrela estava bem e recomendava-se. Apesar dos óbvios problemas de consaguinidade e de falta de soluções e territórios de dispersão para os juvenis. Um dia conto-vos a história da pastorinha, que foi comida e só ficaram os sapatos com os pés dentro. Um mimo da tradição oral, e com detalhes muito interessantes.

  • Rogério Morais diz:

    Se calhar era Chupa Cabras…??!!!
    Chupa-cabras é a designação de origem hispânica atribuída a um ser macabro, considerado de natureza mitológica, que atingiu fama mediática no início dos anos 90 do século XX, por via de pretensos ataques a animais que se tornaram notícias televisivas em todo o mundo. Trata-se de um ser que ataca diferentes espécies de animais em zonas agrícolas e rurais, quase sempre na América Latina (México, Argentina, Brasil, Chile) e no Sul do Estados Unidos (Texas). Outras versões fixam à besta um fácies canino numa estrutura humanóide, embora monstruosamente curvada, com a espinha dorsal saliente, como sucede em vários répteis (iguana) ou sáurios. (tirado da Infopédia Porto Editora. Eu, pessoalmente, nunca vi nenhum…)

  • RicardoC diz:

    Por acaso era um dos meus maiores sonhos ver um lobo em plena natureza. Se fosse um o lobo de uma população estável na Serra da Estrela ainda melhor. Pena que por enquanto seja só um sonho.
    Eu lembro-me dessa história do que se fixou na zona de Idanha, ,mais precisamente em Toulões. Penso que se chegou à conclusão que era um velho lobo só com um canino. Um dispersante que nunca chegou a arranjar “companhia” para formar a sua alcateia. Essa zona e outras da beira baixa tem potencial natural para a sobrevivência do lobo e são visitadas por dispersantes das alcateias mais a norte mas aparentemente a perseguição humana é muito forte e não se conseguem fixar e reproduzr.

  • Rogério Morais diz:

    Só acrescentar um dado importante à reflexão do Ricardo. É exactamente como dizes, as dificuldades de se estabelecerem novas alcateias, com um dado fundamental: as populações estáveis e viáveis a norte do Rio Douro não passam para sul. As da Beira (V.N. de Tázem, da Freita e do rio Águeda (alcateia da Almofala) estão condenadas (o rio Águeda é um afluente do Douro, que corre de Sul para Norte e faz parte integrante do Parque Natural do Douro Internacional). Mas ainda consegues ver ou ouvir lobos, com alguma sorte, a Norte, nas serras do Alvão, do Gerês ou, sobretudo, em Montesinho. Eles andem aí:)

  • Rogério Morais diz:

    Um pormenor curioso: registo, com agrado, que o jornal “Quercus Ambiente” de Novembro de 2009, publica na sua página 19 um artigo sobre a situação do lobo a sul do Douro, e a ameaça que constitui a construção do Parque Eólico Douro Sul, na serra de Leomil (que possui uma alcateia residente), e em que uma fotografia publicada é a do cimo deste artigo, com a referência “Desnível”. Quem diria que a nossa página Web também é referância e fonte para a mais prestigiada associação ambientalista de Portugal!?!.
    Já agora uma proposta: porque não criar uma secção de artigos sobre ambiente e conservação da Natureza? Temos já aqui pelo menos o do Lobo, o da conservação dos Glaciares, etc.

  • Sandra Gazzoni diz:

    À respeito do lobo ibérico, vejam só esta foto ganhadora do Premio Veolia Environment Wildlife Photographer of the Year (José Luis Rodriguez).

    http://blogueiros.axena.org/2009/10/26/jose-luis-rodriguez-y-la-magia-del-lobo-iberico/

    :)

  • Rogério Morais diz:

    Olá Sandra Gazzoni. Estás bem? Continuamos a ser quase vizinhos, ou voltaste para Itália? Isto com a Net nunca se sabe onde cada um tecla. A foto está, de facto, espectacular: Movimento, agilidade, ferocidade, beleza, harmonia, está tudo lá, o que um lobo deve ter. Muito bom. Obrigado por partilhares connosco.

  • Sandra Gazzoni diz:

    Olá Rogério Morais, vizinhos vizinhos nao diria. Estou vivendo em Quito (Equador) há mais de 6 anos. Quito está entre duas cordilleras de nevados e vulcoes maravilhosos. Continuo no desporte: este pais é perfeito para isso. Feliz de partilhar com toda a gente que goste da natureza e da vida activa.

  • Rogério Morais diz:

    Bem, estás mesmo no meio da montanha! É bom saber notícias tuas. Quando voltares a Portugal manda um mail, que continua o mesmo rmmorais@refer.portugal
    Bem que subia um desses pequenos vulcões de 6.000 metros. Beijinhos

  • Avescria diz:

    O que é necessário é criarem zonas protegidas de não caça criando corredores de floresta para as alcateias se expandir, e fumentar a criação em cativeiro e semi-cativeiro de presas selvagens como o corço e o veado para repovoamento. o coberto vegetal tambem terá de ser recuperado e alvo de cuidados para evitar incêndios florestais. A lei terá de ser mais severa para quem pratica envenenamentos e caça furtiva.

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