Multiactividades, o que é?

Multiactividades, o que é?

Foto: Portugal XPD RACE

por Rui Rosado


Aquilo que mais gosto na montanha é da aventura, só aí é que a encontro. Tenho o sentimento de viver mais intensamente o momento presente, de viver mais. Isto é devido à acção. Se a acção falta, tenho a impressão que tudo termina.
Renato Casarotto

O progresso cientifico, neste último século, confirmou o domínio do Homem sobre a natureza. Hoje, o Homem vive de forma completamente independente em relação aos condicionalismos naturais. Exceptuando catástrofes naturais o Homem domina e gere o meio envolvente. Criou inclusive o seu próprio mundo, separado ou à parte da natureza. Curiosamente apelidada de selva de betão, a cidade é hoje o mundo do Homem.

É neste contexto controlado que o homem coabita com o próprio homem, tendo deixado de viver paredes meias com o perigo e o risco existente no mundo natural, com o qual teve que lutar de forma a passar todos os estágio da selecção natural e conseguir sobreviver enquanto espécie.

O homem deixa a cidade, o seu mundo, e aventura-se na montanha, no rio, no ar ou mar.

Por consequência, surgiram os desportos de ar livre. Modalidades que promovem a interacção do Homem com o meio natural. Considera-se que recriam as condicionantes de perigo e risco existente no quotidiano humano do passado. O homem deixa a cidade, o seu mundo, e aventura-se na montanha, no rio, no ar ou mar. Num meio natural belo e por vezes adverso, este tenta alcançar certos objectivos, procurando ultrapassar-se, procurando também aqui o sentido de algo para o qual nem ciência nem religião conseguiram responder de forma plausível.

Infelizmente por vezes o homem não procura aproveitar ou desfrutar da natureza, mas antes quer vencê-la, provável sucedâneo de uma cultura liberalista de competição desenfreada. Por medo do próprio poder natural, por ignorância ou estupidez ou por irracionalismo o homem procura competir com os elementos naturais e tenta vencê-los no seu próprio meio. Subir as mais 14 mais altas montanhas do mundo sem oxigénio, cruzar os 7 oceanos em cascas de noz, alcançar a pé os 2 pólos terrestres, descer a nado o maior dos rios, etc. Resumindo: identificar numa determinada área qual o maior desafio de todos e procurar vencê-lo.

Surgem assim, neste contexto de despique, de vitórias e derrotas as corridas de aventura, denominadas Challenges. De entre as mais famosas temos o Camel Trophy, o Elf Adventure e o Raid Gaulouises. Provas de desafio à resistência humana, ao trabalho em equipa, à gestão do esforço, à qualidade dos materiais, de desafio à própria sorte. Caracterizadas por se desenrolarem em ambientes exóticos, agrestes, enfim apelativos; por porem à prova uma equipa em total autonomia, tendo que percorrer um determinado trajecto (extenso) no menor tempo possível. Normalmente uma corrida destas demora em média 10 dias. Sendo actualmente muito mediáticas, são acompanhadas por batalhões de jornalistas que lutam pela melhor imagem, o depoimento de dor e sofrimento mais real, da cena mais radical. Mais do que querer desfrutar da natureza ou mesmo de querer vencê-la estas provas consistem em negócio, em investimento e lucro, em patrocínio e cachet.

À escala nacional também vamos tendo as nossas provas de aventura. São exemplo disso o Challenge Trophy, o Raid das Quinas ou o Técnico Challenge Outdoor. Provas destinadas ora a executivos de empresas, ora a aventureiros de fim de semana ou até a semi-profissionais do risco pretendem, dentro de um determinado percurso a executar no menor tempo possível, promover uma salada de frutas de desportos aventura/ar livre (vulgo radicais).

Numa outra vertente, de carácter mais lúdico, surgiram os challenges com objectivos de convívio e confraternização. Muitas são as empresas que em Portugal que se especializaram na promoção destes eventos. Actualmente está em voga substituir a festa de natal da empresa pelo Natal Radical no qual toda a família vai em busca do trenó e das renas perdidas, qual Indiana Jones de chicote numa mão e bolo rei na outra. Estes challenges já não se consideram provas de competição, mas antes momentos de recreação e lazer. Não pretendem a rudeza física, embora vivam segundo o seu imaginário e são normalmente executadas por pessoas com escassos conhecimentos técnicos sobre as modalidades que vão realizar e com uma condição física típica de vida sedentária.

A exploração deste contexto imaginário de risco e aventura tem também sido aproveitado por escolas e instituições que trabalham com crianças em situações de risco. Numa filosofia de combater o fogo com o fogo, usar o risco (controlado) para controlar comportamentos de risco. Proceder à mudança de atitudes através da inserção de novas práticas que implicam o cumprimento de certas regras, sob a pena de se sofrer um acidente de consequência grave. Neste contexto, tal como o atleta das corridas de aventura, o jovem sente-se um herói e promove a sua auto-estima (se para tal for devidamente encorajado).

Nota do Editor: Este artigo foi originalmente publicado a 3 de Dezembro de 2002.

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