Neves Eternas na África Equatorial
Relato da ascensão das três montanhas mais altas de África: Kilimanjaro, Monte Quénia e Ruwenzori.
Texto e Fotografia por Francisco Silva
Nota do Editor: Este artigo foi originalmente publicado a 3 de Dezembro de 2002. Para quem pensa em aventurar-se por algumas destas 3 montanhas recomendamos o Guia de Viagem no final do artigo.
- Os mais altos cumes de África
- Kilimanjaro
- Monte Quénia
- Ruwenzori
- Pelos mais altos cumes de África
- Flora e Fauna
- Ascensão – percursos/vias
- Guia de viagem
Na zona equatorial da África Oriental localizam-se as três maiores montanhas deste continente e as únicas que ultrapassam os 5000 metros de altitude.
Os cumes nevados do Kilimanjaro, Monte Quénia e Ruwenzori parecem miragens quando observados das tórridas estepes e savanas que os rodeiam. Estas três montanhas estão envoltas em lendas e mitos, resultantes dos relatos incríveis dos primeiros exploradores e pela insólita presença de glaciares em plena África Equatorial.
Embora não sejam destinos privilegiados pelos alpinistas portugueses, estas montanhas são muito peculiares e proporcionam ascensões bastante diversificadas, desde as muito técnicas a outras acessíveis à generalidade dos visitantes.
Os mais altos cumes de África
O tecto do continente africano pertence ao mítico Kilimanjaro, com os 5891 metros de altitude do Uhuru Peak. Embora menos elevados, os dois principais cumes do Monte Quénia: o Batian com 5199m e o Nelion com 5188m, são bastante mais difíceis de escalar. Para completar a trilogia dos cinco mil, os Ruwenzori, situados entre a República Democrática do Congo e o Uganda, individualizam-se dos seus rivais por serem uma complexa cordilheira que culmina nos 5109 metros do Pico Margherita.
Localizados na mesma zona climática e separadas por menos de 900 quilómetros, estas montanhas apresentam um ambiente ecológico semelhante, mas muito peculiar se comparado com as outras grandes montanhas do mundo. A multiplicidade de domínios florísticos e a sua originalidade representam mesmo um dos aspectos mais interessantes destes relevos pouco humanizados.
Estes três “gigantes” apresentam igualmente traços comuns em relação à sua génese geológica, associada à actividade tectónica no Grande Rift Africano. Os progressivos movimentos de divergência no sector oriental da placa africana deram origem a uma dantesca depressão rodeada de relevos imponentes. O Monte Quénia e o Kilimanjaro resultaram da actividade vulcânica ao longo desse rift enquanto os Ruwenzori se formaram devido à compressão da crosta terrestre. Assim os dois primeiros são montanhas arredondadas relativamente simples, que contrastam com a complexidade morfológica dos Ruwenzori: uma longa cadeia de montanhas pejada de cumes e vales profundos.
Kilimanjaro

Moshi, uma pequena e pacata cidade tanzaniana situada no sopé do Kilimanjaro, é o principal ponto de partida para a ascensão ao Kili. Embora situada nas proximidades da montanha, muitas vezes, a primeira sensação que os visitantes sentem ao chegar é de desilusão, pois o Kili está muitas vezes envolto em nuvens. Só ao fim da tarde e ao amanhecer é que existe grande probabilidade de observar o cume vestido de branco, que parece flutuar sobre as nuvens.
Embora estejamos em plena era das telecomunicações, a principal dificuldade em organizar a nossa expedição, em Dezembro de 1992, foi a falta de informação relativa aos aspectos logísticos e burocráticos inerentes à escalada desta montanha. Como o governo tanzaniano obriga as expedições a recorrerem aos serviços de uma agência, estabelecemos o contacto com uma localizada na região, para evitar pagar os elevados preços praticados pelas agências internacionais. Paradoxalmente o facto de sermos um país com fraca tradição no montanhismo ajudou-nos a obter projecção mediática e consequentemente patrocínios.
A ascensão ao Kilimanjaro é tecnicamente simples, mas exige um grande esforço dos escaladores, resultante de uma difícil aclimatação inerente à elevada altitude e à rapidez da ascensão. A nossa experiência alpina permitiu-nos optar pelas duas vias mais difíceis e espectaculares: a Machame na subida e a Umbwe na descida.
Um Land Rover levou-nos através dos campos cultivados situados no sopé da montanha, até à entrada do Parque. Os carregadores já nos esperavam. Como era dia de Natal a agência tinha-os enviado no dia anterior, para evitar que algum excesso com as festividades, os impedissem de estar operacionais para a árdua tarefa que os aguardava.

Na primeira etapa da ascensão atravessámos a densa floresta tropical. Após termos superado 1500m de desnível, acampámos no limiar da floresta junto do Machame Hut, aos 3000m de altitude. No dia seguinte percorremos a extraordinária estepe subalpina, dominada pelos senécios e as lobélias gigantes. No Shira Hut, aos 3700m, encontrávamo-nos sobranceiros a uma enorme depressão causada pelo abatimento do Shira, que é um dos três cones vulcânicos que constituem o Kilimanjaro.
O terceiro dia desenrolou-se por uma agreste e monótona paisagem envolta em neblina. Os problemas de aclimatação consequentes de uma rápida progressão em altitude acentuavam-se. Após uma curta caminhada estabelecemos o quarto acampamento aos 4800m, nas proximidades do Arrow Glacier. Tal como tinha acontecido no dia anterior, os carregadores, depois de deixarem o nosso material, desceram para um refúgio situado abaixo dos 4000m, prevenindo-se deste modo contra o mal de altitude e o frio. Como se tratava da noite do “assalto final”, os dois guias ficaram numa das nossas tendas.
O acampamento aproveitava uma pequena plataforma que parecia estar suspensa sobre um mar de nuvens. Apressámo-nos a ir dormir, mas a excitação inerente à conquista do cume e a rarefacção do ar, não ajudaram o nosso sono. Quando, à 1h30 da madrugada, tocou o despertador, ninguém se dignou a resmungar. Tínhamos que partir muito cedo para chegar ao cume ao amanhecer, antes deste ficar envolto em nuvens e para garantir a descida.
Auxiliados pela luz dos frontais, seguimos os guias num ritmo lento mas determinados a vencer os últimos 1100m de desnível que nos separavam do topo. A monotonia só foi quebrada pela aurora. Subitamente “o pano” levantou-se e foi-nos desvendada a imensidão que nos rodeava. A 70km à nossa frente o Neru, com 4556m de altitude, parecia uma montanha de brinquedo naquela paisagem sem fim.

Uma hora mais tarde chegámos ao planalto da cratera do Kibo, onde recebemos os primeiros raios de Sol. Acompanhados por vento gelado, aqueceram-nos mais a Alma que o corpo. Esta dantesca cratera é de uma esterilidade impressionante. Os contorcidos relevos de lava contrastam com o cristalino Glaciar de Furtwangler. No centro, a cratera ainda se mantém intacta, realçando a juvenilidade geológica desta montanha, com cerca de um milhão de anos.
Encontrávamo-nos a escassos duzentos metros do ponto mais elevado de África, no entanto este diminuto desnível parecia aumentar a cada passo.
Já o Sol se encontrava alto quando, aos 5896m, festejávamos o sucesso da expedição, contemplando este extraordinário, mas flagelado continente, a partir do seu topo. Observada a partir do tecto de África, a savana atinge proporções infinitas. Restavam-me poucas energias, mas o desmesurado esforço, eram plenamente compensado.
Nessa tarde ainda nos esperava uma imensa descida até chegarmos ao Barranco Hut, situado aos 3900 metros. O dia seguinte não era mais tranquilo; esperava-nos uma descida de 2400 metros de desnível, ao longo da via Umbwe, a mais abrupta e fantástica que o Kili proporciona.
Primeiros conquistadores – Kilimanjaro
A primeira ascensão de que há história a conquistar o cume, foi empreendida pelo geógrafo Hans Meyer, acompanhado pelo célebre guia de montanha austríaco Ludwig Purtscheller em 1889.
Com a construção do Kibo Hut em 1932 começaram a organizar-se regularmente expedições, utilizando a via normal.
Desde que realizámos a nossa expedição, em 30 de Dezembro de 1992, que muitos outros portugueses subiram ao “Tecto de África”.
Monte Quénia

Depois de uma primeira visita ao Monte Quénia em Agosto de 1990, com a ascensão do Pico Lenana (4985 m), regressei acompanhado pela Maria do Céu Almeida a esta montanha para fazer a sua escalada. Estávamos em Agosto de 1996 e vínhamos de uma viagem pelo Ruanda, onde fomos observar os Gorilas de Montanha e de realizar a ascensão aos Ruwenzori, via Uganda. Para não perdermos a aclimatação dirigimo-nos apressadamente para o Monte Quénia. Bastaram-nos dois dias de viagem em autocarro e matatos para chegar a Naro Moru. Esta aldeia, situada a 3 horas a norte de Nairobi, é a mais popular base de escalada ao Monte Quénia.
Para não fugir à regra hospedámo-nos no popular Naro Moru River Lodge. A manhã seguinte acordou brilhante e, embora fosse a segunda vez que visitava o Monte Quénia, saltei impulsivamente da cama para contemplar o magnífico cume que os kikuiu baptizaram de “Montanha Branca”.
Uma agência local insistiu em vender-nos os seus serviços, insistindo de que era tarefa impossível subir ao Batian sem a ajuda de guia e carregadores. Recusámos porque pretendíamos fazer a ascensão em estilo alpino, sem carregadores e sem guias.
Com a finalidade de ganharmos um dia, subimos de todo-terreno até ao refúgio situado junto à estação meteorológica, aos 3050 metros de altitude. Normalmente a primeira etapa da ascensão termina aí, mas como estávamos bem aclimatados resolvemos prosseguir viagem. A altitude, a subida íngreme e os cerca de 20 kg que transportávamos condicionaram-nos a imprimir um ritmo muito lento. Aos 3400 metros a paisagem modifica-se bruscamente. A floresta tropical dá lugar à estepe alpina, povoada de gramíneas e dos espectaculares senécios e lobélias gigantes.

Chegámos ao fim da tarde ao MacKinder Camp, situado aos 4200 metros. O guarda do refúgio, pouco habituado a alpinistas auto-suficientes reduziu-nos significativamente o preço da estadia. Aproveitámos o resto da tarde a observar os intrigantes Rock Irex, uns roedores do tamanho de coelhos que povoam aquelas altitudes.
Ao fim da tarde o denso manto de nuvens começou a descer, e Sol poente invadiu de dourado os afiado picos rochosos e os pequenos glaciares que os rodeiam.
Na manhã seguinte, quando acordámos já o refúgio se encontrava vazio. Os outros expedicionistas tinham saído pela madrugada para fazerem a ascensão ao Pico Lenana. Com 4985 metros de altitude, é mais alto pico do Monte Quénia que se pode subir sem se necessitar de material nem conhecimentos técnicos de escalada. A nós esperava-nos um dia calmo. Em hora e meia subimos aos 3630 metros e instalámo-nos no Black Hole Bivy, um refugio improvisado debaixo de um bloco de granito.
Passámos a tarde a preparar a ascensão do dia seguinte, a reconhecer a via que pretendíamos escalar e a beber muito chá para nos hidratarmos. Darwin era a via eleita. Desenvolve-se na espectacular face sul do Batian e do Nelion, num esporão rochoso situado ao lado da via mais famosa do Monte Quénia – o Diamond Couloir (VI grau). Normalmente, em Agosto a face Sul é a mais protegida das intempéries, mas este ano apresentava-se coberta de neve. Em boas condições não são mais de oito horas de escalada com o máximo de IV grau de dificuldade.

Nesse ano as condições climatéricas estavam trocadas. A via apresentava péssimas condições de escalada, por baixo de uma espesso manto de neve floculenta existia uma camada de gelo muito rijo. Conferenciamos largamente antes de tomar uma decisão. A favor só tínhamos a nossa excelente aclimatação e determinação; contra tínhamos as péssimas condições de escalada, uma mochila pesada e lacunas importantes no nosso equipamento: não tínhamos trazido nem botas rígidas nem sacos camas quentes.
O objectivo era dedicar um dia à escalada do Batian, dormir no topo e descer no dia seguinte. Iniciámos a escalada às cinco horas e meia da madrugada. Após uma extensa rampa de neve deparámos com uma delicada travessia em gelo. Ás 10 da manhã começou a nevar e só parou com o anunciar da noite. Após 11 largos de corda, chegámos ao cimo do Diamond Glacier. As nuvens desapareceram como por encanto e um abismo de gelo maravilhou-nos, mas ao mesmo tempo acentuou a nossa intranquilidade. Subitamente, a água que encharcava a corda congelou, dificultando a progressão. Apercebemo-nos que estávamos a ser surpreendidos pela noite e ainda nos faltavam vencer cerca de 150 metros de desnível até ao topo. A escalada nocturna que se seguiu foi de uma intensidade indescritível.
Chegámos completamente gelados e exaustos ao ansiado Howell Hut, situado aos 5188 metros no cimo do Nelion. Este magnífico abrigo é uma simples caixa metálica com meio de altura, construída por Ian Howell. Em Fevereiro de 1970, o material para a sua construção foi atirado de pára-quedas para o Lewis Glacier (4800 m) e Howell transportou-o até ao cimo do Nelion durante treze ascensões em solo.

Acordámos com o crepúsculo. A montanha mostrava-se esplendorosa. Recebemos os primeiros raios de Sol em êxtase. Senti que existem momentos que valem por uma vida!
Descemos pela via normal da face Norte, utilizado uma sucessão de rapeis equipados, mas difíceis de encontrar. No Austrian Hut, aos 4790 metros, fomos recebidos com entusiasmo. Tinham-nos visto no topo e nesses últimos meses tinham sido poucas as expedições a aventurarem-se a escalar nos últimos meses.
Resolvemos descer pela Chogoria route, o mais interessante dos três trilhos que ligam o coração da montanha às aldeias localizadas na savana.
Primeiros conquistadores – Monte Quénia
A primeira ascensão a esta montanha foi realizada, em 1899, pelo geógrafo britânico Halford Mackinder.
Actualmente é visitada por inúmeros viajantes e alpinistas, por ser a mais acessível dos três “gigantes de África” e a mais estimulante para a prática de escalada técnica.
São bastantes os portugueses que já fizeram a ascensão ao Pico Lenana (4985 m). Em Agosto de 1996, Francisco Silva e Maria do Céu Almeida, realizaram a ascensão ao Pico Nelion (5188 m).
Ruwenzori

Relativamente pouco conhecidas entre nós, esta cordilheira transpira mistérios e lendas associados às nascentes do Nilo. Embora os primeiros europeus só tenham descoberto os Ruwenzori em 1864, estas montanhas já tinham sido cartografadas por Ptolomeu no século II. Não conhecia a sua existência, mas provavelmente supôs que rio tão caudaloso como o Nilo haveria nascer numa grande montanha. A realidade veio a verificar-se um pouco diferente pois, embora a cordilheira que Ptolomeu designou por Montanhas da Lua seja extremamente pluviosa, não constitui a principal das diversas nascentes do Nilo.
Situada ao longo da fronteira do Uganda com a República Democrática do Congo, esta cordilheira com cerca de 110 quilómetros de comprimento, é densamente arborizada abaixo dos 3500 metros de altitude. O seu ponto culminante, o Pico Margherita com 5189m, é o terceiro mais alto de África, a escassos 10 metros do Batian, no Monte Quénia. Os glaciares, situados em regra acima dos 4500 metros, atingem nesta cordilheira, dimensões bastante mais significativas do que no Kilimanjaro e no Monte Quénia.
Embora existam muitos trilhos potenciais para a prática de trekking o único devidamente organizado e servido por uma razoável, embora rudimentar, rede de refúgios, é o circuito de Bujuku. Infelizmente o governo ugandês atribuiu a exploração deste circuito a uma única agência e condiciona as visitas à obrigatoriedade de serem acompanhadas por um guia oficial. Quando nos deslocámos à agência Ruwenzori Mountains Services, em Kasese, ficámos revoltados com os preços que nos pediram e por nos quererem obrigar a adquirir serviços dispensáveis. Partimos então para Fort Portal onde indagámos, sem êxito, as poucas agências de viagens existentes. Foi-nos referida a hipótese de conseguirmos as nossas pretensões noutra entrada do Parque, situada próximo da fronteira com o ex-Zaire.

Na manhã seguinte instalámo-nos na carroçaria de uma pick-up e partimos para Bundibugyo. Foram três horas por uma pista que atravessa os Ruwenzori pelo flanco nordeste. Neste povoado com funções administrativas e comerciais, indicaram-nos uma espécie de agência. Justus Nkayarwa, um homem robusto mas de fácies afável, recebeu-nos com alguma surpresa. Começou por nos responder que não era possível organizar a expedição ao monte Stanley. Já tinha organizado uma expedição para uns suíços, mas eram muitos e levavam bastantes carregadores. Foi necessário enviado homens à frente para abrir o trilho e desde então a vegetação voltou a cobri-lo.
Acabou por acender às nossas pretensões. Em tempo recorde tratámos das formalidades com os serviços do Parque, arranjámos um ranger para nos acompanhar, comprámos mais alguns alimentos e material “técnico” para o guia e o carregador e alugámos uma pick-up para nos levar à aldeia de Kakuka!
Na manhã seguinte, rodeados por uma multidão de alunos curiosos, iniciámos a nossa ascensão. Caminhámos durante duas horas por uma encosta íngreme, cultivada com bananeiras, café, mandioca, e outros produtos de uma agricultura tradicional de subsistência. A entrada do Parque coincidia com o início da floresta tropical. Quando chegámos à floresta de bambus Andrew, o ranger que supostamente nos serviria de guia, disse que iríamos acampar ali, pois não conhecia o percurso dali para a frente! Ficámos ansiosos pela vinda de Joseph. Chegou três horas mais tarde com um carregamento indescritível de comida. Nas suas costas destacava-se um cacho de bananas que deveria de pesar mais do que toda a comida que eu e a Céu tínhamos. Este homem de meia idade e pequena estatura, não estava muito satisfeito com a logística da expedição. Deixou-nos deveras preocupado quando nos afirmou não ser possível fazer a ascensão em oito dias. Nós só dispúnhamos de comida para sete dias e meio!

No segundo dia o caminho continuou a desenvolver-se ao longo de uma vertente bastante íngreme. Após a floresta de bambus, deparámos com uma densa cobertura de vegetação, que tapava completamente o trilho. Joseph seguia à frente abrindo à catanada o caminho. Carregado com cerca de 25 kg, sustentados por uma simples tira à cabeça, e calçado com umas galochas, conseguia progredir a bom ritmo, naquelas encostas íngremes e argilosas. Não só era um excelente carregador, como também um montanheiro nato, explorador, guia, cozinheiro e um ser humano de uma simpatia e humildade admiráveis.
Montámos o nosso segundo acampamento aos 3650 metros, num ambiente dominado por vegetação herbácea e arbustiva muito peculiar. Esperavam-nos dois dias penosos. O trilho tinha terminado e passámos a percorrer uma sucessão de cristas situadas entre os 3700 e os 4000 metros de altitude. Despendíamos bastante energia, devido à altitude e às características do percurso, que nos obrigava a frequentes escaladas para ultrapassar constantemente obstáculos. Em compensação, da crista a paisagem alarga-se para horizontes longínquos e a vegetação é de uma beleza inaudita. Sobressaem os mantos de musgos matizados e as lobélias e senécios, que nalgumas zonas atingem mais de quatro metros de altura. Pela manhã era possível observar ao longe os cumes nevados.
Determinados fazer a ascensão ao monte Stanley, partíamos muito cedo e só parávamos ao fim da tarde. Desta forma em três dias vencemos cinco etapas. No quinto dia chegámos a uma ampla depressão e compreendemos então porque preferia Joseph as cristas em vez dos vales. A abundante precipitação transforma-os em pântanos difíceis de atravessar. A meio da tarde alcançámos, finalmente, o circuito principal. Daí bastou meia hora para atingirmos o refúgio John Matte. Sem autorização para pernoitar nos refúgios, continuámos durante mais uma hora até uma caverna, situada junto ao refúgio Bigo.
Na manhã seguinte acordámos ainda o Sol não se anunciara. Tínhamos decidido separarmo-nos dos nossos acompanhantes. Joseph e Andrew iriam descer até ao refúgio de Nyabitaba, situado aos 2450 metros, na confluência dos dois trilhos do circuito normal. A nós restavam-nos dois dias e meio para fazer a ascensão ao Pico Margherita (5189m) e descer até ao refúgio onde o nosso guia e o carregador nos iriam esperar. Normalmente são necessários cinco dias para fazer essa parte do percurso!
Nessa noite fomos dormir ao refúgio Helena situado aos 4540 metros. Após algumas horas mal dormidas iniciámos a ascensão às quatro horas da madrugada pelo glaciar East Stanley. O amanhecer não foi reconfortante pois estávamos envoltos num manto de nuvens. Perdemo-nos diversas vezes, mas com preciosa ajuda da bússola e de um mapa, lá encontrámos o caminho de acesso à estreita língua glaciária, que desce do colo entre os dois picos mais altos dos Ruwenzori.
Felizmente pouco antes de chegarmos ao cume surgiu, quase por magia, um azul intenso sobre nós. Ao nosso lado encontravam-se extraordinárias cristas rochosas decoradas por pendentes de gelo. No topo as sensações intensificaram-se. Com um pé no ex-Zaire e outro no Uganda, saboreámos a paisagem e aqueles momentos sublimes. Entusiasmados e bem aclimatados decidimos seguir pelo circuito mais longo até ao local onde Joseph e Andrew nos esperavam. Em três horas descemos mais de mil metros de desnível e chegávamos ao refúgio Kitandara. Após uma curta pausa iniciámos a penosa subida de 250 metros até ao Fresh Field Pass.
A partir desse ponto o circuito é uma longa descida até à saída do Parque. Embora o trilho seja fácil de seguir, apresenta alguns troços delicados e as zonas planas são autênticos pântanos, que nos obrigam a um constante jogo de equilíbrio entre pequenos troncos e tufos de ervas, para não nos atolarmos na lama.
Quando, na manhã seguinte, e após mais quatro horas de “corrida”, chegámos ao refúgio de Nyabitaba, Joseph e Andrew receberam-nos com entusiasmo. Exaustos mas maravilhados pela extraordinária aventura que acabávamos de realizar, ainda encontrámos forças para atravessar a floresta tropical e chegar a Ibanda, onde apanhámos uma carrinha para a cidade. Estávamos conscientes que tínhamos realizado uma aventura cheia de imponderabilidades, levada a bom termo graças a um esforço desproporcionado e a muita sorte.
Primeiros conquistadores – Ruwenzori
Só em 1864 é que estas montanhas foram avistadas por um europeu, durante uma expedição em busca das lendárias nascentes do Nilo.
A ascensão do pico mais elevado só foi conseguida em 1906, por uma expedição italiana comandada pelo Duque dos Abruzos.
Nesta década o Parque Natural dos Ruwenzori recebe cerca de 1300 visitantes por ano, mas só uma pequena percentagem é que sobe ao Pico Margherita (5109).
Não existem registos de expedições portuguesas ao maciço. Em Agosto de 1996, Francisco Silva e M.ª do Céu Almeida, realizaram a ascensão ao Pico Margherita.
Pelos mais altos cumes de África
Com a ascensão ao Pico Nelion no Monte Quénia em Agosto de 1996 tinha completado um périplo pelas três montanhas mais altas de África. Embora o Kilimanjaro seja indiscutivelmente a mais famosa, o Monte Quénia é de longe a mais interessante a nível de escalada técnica. Por sua vez, os Ruwenzori são incomparáveis devido à sua dimensão e complexidade morfológica. com os seus rivais, pela sua dimensão e porque me cativaram com uma estranha composição de sensações de encanto, aventura e desconforto.
Flora e Fauna

Como se situam na mesma região climática a flora e a fauna são semelhantes. Verifica-se um escalonamento em altitude de microclimas e de ecossistemas: na planície impera a savana rica em vida selvagem; dos 1000 aos 1800m predominam as plantações tropicais; no estrato seguinte, até aos 2800m, estende-se a floresta tropical húmida; acima dos 3000m surge uma zona de estepe subalpina da qual sobressaem os senécios e as lobélias gigantes; dos 4000 aos 5000m localiza-se a zona alpina com enormes amplitudes térmicas diurnas, onde só os líquenes e algumas plantas rasteiras conseguem sobreviver; acima dos 5000m entra-se no domínio das neves perpétuas.
Ascensão
Estas montanhas constituem Parques Naturais devidamente organizados e com diversas restrições. Em qualquer deles é necessário pagar uma diária. As expedições ao Kilimanjaro e Ruwenzori são igualmente obrigadas a recorrer aos serviços de uma agência local.
Caminhos no Kilimanjaro
Existem sete itinerários para ascensão ao Kilimanjaro:, Mweka, Shira, Loitokitok, e Njara, sendo os mais utilizados o Marangu, Machame e Umbwe.
A Marangu route, vulgarmente conhecida pela Tourist route, é a mais utilizada por ser a mais fácil e a única que oferece refúgios em bom estado. Embora esta via não apresente dificuldades técnicas só cerca de 20% das pessoas que a utilizam é que conseguem chegar ao topo do Kili, devido sobretudo ao mal de montanha. Normalmente este percurso é realizado em 5 dias, mas é recomendado um dia suplementar para permitir uma melhor aclimatação.
A Shira, Nanjara e Oloitokitok são itinerários pouco utilizadas, enquanto que a Mweka Route é usada para descer. Uma variação da Shira Route, a Lemosho Glades Route, é muito bonita e atravessa áreas ricas em fauna e a Shira Route é usada por aqueles que querem chegar rapidamente ao Shira Plateau em veículo.
Caminhos do Monte Quénia
As três vias utilizadas regularmente para escalar o Monte Quénia são: Naro Moru, Chogoria e Sirimon. A mais utilizada é a Naro Moru, por ser a que permite uma ascensão mais rápida, ser a mais acessível a partir de Nairobi e a que apresenta melhores refúgios.
A caminhada inicia-se geralmente aos 3050 metros, junto a um refúgio e à estação meteorológica. Para chegar aí terá de se alugar um transporte em Naro Moru (cerca de 10 000 esc.). O refugio seguinte fica situado no Mackinder Camp aos 4200m, e serve de base à ascensão ao Pico Lenana. Contar com 3 a 4 dias para realizar a ascensão a este pico. Poderá organizar a sua expedição em Nairobi ou em Naro Moru.
Caminhos dos Ruwenzori
As condições de ascensão ao Ruwenzori estão constantemente a mudar. Dos diversos circuitos possíveis, só uma é utilizado regularmente e é a única que dispõe de refúgios em todo o seu percurso. Inicia-se em Nyakalengija no Uganda.
A agência Ruwenzori Mountains Services (RMS), PO Box 33, Kasese, com uma filial próximo da entrada do Parque Natural em Ibanda, detém o monopólio da exploração deste circuito. Contar no mínimo com 10 dias para a viagem, dos quais 6 a 7 dias nas montanhas. O preço da expedição é variável, mas nunca menos de 250 dólares por pessoa e um pouco mais se pretender subir a um dos principais picos. A ascensão ao Pico Margherita não é tecnicamente muito difícil mas recomenda-se alguma experiência em alta montanha e um guia especializado.
Guia de Viagem
Guia de Viagem
Não é necessário ser-se alpinista para realizar a ascensão aos três gigantes africanos, desde que se recorra aos serviços de guias especializados. Qualquer pessoa motivada e em boas condições físicas pode realizar estas magníficas e inesquecíveis aventuras. Exceptua-se a ascensão aos dois picos mais altos do Monte Quénia, pois exigem elevados conhecimentos de montanhismo.
É possível realizar as três ascensões de seguida, recomendando-se iniciar-se, pelos Ruwenzori, ou pelo Monte Quénia e deixar para o fim o Kilimanjaro.
A região equatorial da África Oriental apresenta muitos outros motivos de interesse para os visitantes, para além destas espectaculares montanhas, podendo optar por umas férias diversificadas que incluam safaris, montanhismo e praias exóticas.
Como Ir
Existem diversas companhias que voam para Nairobi, Dar-es-Salaam e Entebe (Kampala). Os preços variam entre 140 e 200 mil escudos.
A forma mais económica de organizar a viagem é voar até Nairobi e utilizar transportes terrestres para se deslocar até às povoações que servem de base à ascensão ao Kilimanjaro (Moshi), Monte Quénia (Naro Moru) e os Ruwenzori (Kasese). Da capital queniana existem autocarros directos para Moshi e para Kampala no Uganda. A partir da capital ugandesa poderá seguir de autocarro ou de matatos (carrinhas de transporte colectivo) para Kasese.
Poderá igualmente recorrer aos serviços de agências nacionais, internacionais ou as agências localizadas em Nairobi que organizam expedições aos três “Gigantes de África”.
Quando ir – Clima
Estas montanhas localizam-se na zona equatorial, onde as temperaturas são elevadas durante todo o ano. No entanto devido ao relevo a nebulosidade e a precipitação são mais intensas e verifica-se um escalonamento com a altitude de micro climas que variam desde o equatorial, no sopé, ao árctico nos cumes.
O factor mais importante na escolha da época de viagem é a distribuição da precipitação. Preferir a estação seca: Kilimanjaro – meados de Dezembro a finais de Fevereiro e de Julho a finais de Setembro; Ruwenzori – Janeiro e Fevereiro e de Junho a meados de Agosto;
As oscilações das condições meteorológicas ao longo do dia são igualmente importantes. As temperaturas descem bastante durante a noite e as nuvens só libertam os cumes ao fim da tarde até às primeiras horas da manhã.
Formalidades
Visto obrigatório para entrar no Quénia e na Tanzânia que pode ser adquirido à entrada do país ou em qualquer embaixada destes países no estrangeiro. Os portugueses não necessitam de visto para entrar no Uganda.
Saúde
Como estas montanhas se localizam na região inter-tropical e em países pobres, os cuidados de saúde devem ser maiores, devido essencialmente às doenças tropicais, aos problemas de higiene e dos serviços de saúde locais. Em muitos países tropicais e equatoriais a vacina da febre amarela é obrigatória e fundamental. Recomenda-se igualmente fazer a profilaxia da malária/paludismo. Geralmente não existem problemas com a malária nas regiões acima dos 3.000 metros, no entanto convém fazer a profilaxia devido à estadia em baixa altitude.
O “mal de altitude”, provocado pela rarefacção do oxigénio com a altitude, é em geral uma das principal dificuldade na ascensão de montanhas tão elevadas. Na ascensão a estes três “gigantes africanos” este problema é agravado devido à rapidez das ascensões, que não permitem uma boa adaptação fisiológica à altitude.
Para mais informações sobre adaptação à altitude ver:
Equipamento
Poderá visitar estas três montanhas sem necessidade de equipamento técnico de escalada, mas neste caso não poderá subir nem ao Pico Margherita nos Ruwenzori, nem aos picos Batian e Nelion no Monte Quénia. É indispensável levar um bom saco cama, roupa quente e impermeável, botas secas, lanterna, óculos escuros, creme solar para além da indispensável farmácia.
Algum do equipamento, incluindo material técnico, pode ser alugado nas agências locais. Em geral a comida dos escaladores não está incluída nos serviços das agências, exceptuando no Kilimanjaro ou nas expedições “luxuosas” ao Monte Quénia.
Moeda
A moeda destes três países é o shilling mas com cotações diferenciadas.
Ver cotações actualizadas:
- www.cnn.com/travel/essentials/
Na Tanzânia existe mercado negro de moeda com câmbio bastante mais favorável que o oficial.
Língua
No Quénia e na Tanzânia a língua mais falada é o Swahili mas o inglês é muito utilizado. No Uganda o idioma oficial é o inglês, mas nas aldeias dominam os dialectos locais.<
Guias e Mapas
Guias:
- East Africa – a travel survival kit, Lonely Planet, Junho 97;
- East African Handbook; Trade & travel Handbooks;
- Backpacker’s Africa, Bradt Publications, UK; Kenya, Lonely Planet, Abril 97;
- Guide to Mt Kénya & Kilimanjaro de Iain Allan.
Mapas:
- East Africa -1/4 000 000, da Michelin;
- Kilimanjaro 1/50000;
- Mt Kenya 1/50000, Rwenzori 1/50000.
Pode adquirir a maioria destes guias e mapas na capital queniana: Nation Bookshop, Kimathi St, Nairobi (junto ao New Stalley Hotel).
Links Recomendados (onde obter mais informação):
- www.ewpnet.com/Kili.htm
- www.peakware.com/encyclopedia/peaks/kilimanjaro.htm
- www.kilimanjaro.com/kenya/mtkenya.htm
- www.ewpnet.com/MtKenya.htm
- www.mountkenya.com




Terça-feira, 10 Janeiro, 2012 at 22:00
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