Planear um Multiactividades

Planear um Multiactividades

por Rui Rosado

As multiactividades são genericamente designadas por actividades que englobem duas ou mais modalidades desportivas de ar livre. Num contexto de recreação turística um passeio a pé combinado com uma descida de rio ou um percurso em BTT é um programa de multiactividades. No entanto, um programa de multiactividades pode ser mais complexo e combinar muitas outras modalidades.

Estes programas podem ser realizados dentro de vários contextos: recreação, formação e competição. São utilizados, por exemplo, no âmbito de acções de convívio escolar, em sessões de formação de quadros de empresas ou em provas de carácter competitivo.

Para se criar um programa deste género há que ter em conta vários aspectos.

Objectivos

O primeiro aspecto a considerar, na concepção de um programa são as razões que nos levam a desenvolvê-lo. Um multiactividades deve ser uma resposta às necessidades específicas dos participantes, quer sejam de recreação, educação, desenvolvimento ou terapia através da aventura, por exemplo. Por isso a primeira medida a tomar é identificar e registar numa folha de papel os propósitos, objectivos e razões para se realizar a actividade.

Actividades

Devem escolher-se actividades que pelas suas características venham a dar respostas aos objectivos delineados, e não as que satisfaçam as vontades ou desejos dos monitores ou organizadores. Por isso há que ter em atenção factores afectos aos participantes como maturidade emocional, níveis capacidade física, desenvolvimento social e capacidades cognitivas. Seleccionem-se actividades que comportem o risco suficiente para parecerem arriscadas aos olhos dos participantes e de que cujo risco se possam tirar dividendos de aprendizagem. Uma actividade demasiado técnica poderá não ser efectuada pelos participantes, por ser demasiado complicada ou arriscada, mas com uma preparação prévia ou englobada num programa contínuo pode-se partir de tarefas, jogos ou actividades simples para outras de maior envergadura.

É igualmente importante na fase de planeamento ter uma actividade extra preparada, na eventualidade de o programa necessitar de ser alterado ou no caso de mudança drástica das condições meteorológicas. Considere-se sempre a hipótese de anular a actividade de segurança dos participantes poder estar em causa.

Local

A escolha do local deve ser feita de forma a responder aos objectivos e às necessidades técnicas das actividades, e não por ser uma zona que gostaríamos de explorar por gozo próprio. Obtém informações através de mapas, fotografias aéreas, livros, postos de turismo, residentes locais, etc. Tudo deve ser explorado nesta pesquisa: fauna, flora, tipo de terreno, meteorologia, factores de risco, caminhos, locais de acampamento ou pernoita, etc. Compara e contrasta os seguintes factores na eleição do sítio:

  • Tempo e distância para se chegar ao local;
  • Tempo e distância para a chegada de meios de socorro ao local;
  • Autorizações (facilidade e custo) para realizar a actividade;
  • Regulamentações impostas no local pelas entidades competentes;
  • Capacidade do local para suportar o tamanho e tipo de grupo;
  • Possibilidade de massificação e conflito com outros possíveis grupos.

Após a eleição do local procede a um reconhecimento. Assim podes tomar decisões mais facilmente, não te perderás mais tarde com o grupo, poderás equacionar respostas para questões de emergência, etc. Lembra-te que entre o reconhecimento e a data da actividade muitos factores podem mudar, tais como a quantidade de luz solar, o tempo ou o terreno (pó, lama). Lembra-te ainda que geralmente os monitores deslocam-se e orientam-se mais rapidamente que os participantes.

Programa e Horário

O programa deve ser criado pensando-se nas diversas vicissitudes dos actividades e locais e tendo em conta os objectivos da actividades e capacidades dos participantes.

Assinala no mapa os pontos de interesse e locais adequados às diversas actividades. De seguida marca um itinerário adequado que de uma forma lógica interligue todos estes pontos. Este deve ser flexível, de forma a se poder esperar por elementos atrasados, que permita evacuações rápidas, contemple locais agradáveis de descanso e tenha em conta a topografia do local. Lembra-te ao delineares o horário de que deve haver sempre tempo a mais para cada tarefa a executar, porque os atrasos e demoras são uma inevitabilidade.

No caso de ser necessário alterar o programa no decorrer da actividade, este deve sempre tentar manter os objectivos traçados, se se comprometer a segurança toma a decisão certa e cancela a actividade.

Participantes

O programa está a ser desenvolvido para responder às necessidades dos participantes, pelo que é necessário averiguar se estes se encontram preparados para as actividades a desenvolver. Não aceites participantes que não possam preencher os critérios necessários, quer a nível de saúde, incompatibilidades com os demais participantes, falta de preparação técnica, etc.

Considera ainda outros aspectos tais como o numero de participantes ( estima um número e espera que este decresça ou aumente um pouco), sexo, idade, interesses, níveis de motivação e energia, necessidades especiais (medicamentação, vegetarianos), deficiências físicas, capacidades técnicas, etc.

Se possível realiza um inquérito para saberes de casos particulares em que é necessário atenções especiais, por exemplo pessoas diabéticas, de idade com hipertensão e possibilidades de ataques cardíacos, mudas ou surdas, etc. No caso de menores de idade exigir uma autorização dos encarregados de educação para poder participar.

Informa previamente os participantes das características da actividade, facultando-lhe todos os detalhes possíveis sobre as condições do local, as exigências físicas e técnicas, os transportes, locais de alimentação, locais e contactos de socorro, equipamento necessário e outras demais informações relevantes. Recolhe ainda uma ficha com os dados pessoais de todos os participantes, contactos de casa e emprego, necessidades e cuidados especiais e contacto de amigos ou familiares a contactar no caso de acidente ou atraso.

Aconselha ainda os participantes sobre a forma de se prepararem física, técnica e psicologicamente para a actividade, facultando-lhe se necessário toda a informação escrita de que dispuseres.

Equipas

Divide o grupo em equipas. Dimensiona o tamanho do grupo de forma a maximizar as relações inter-pessoais, optimizar as oportunidades de aprendizagem e minimizar os impactos ambientais. O tamanho usual de um grupo varia entre os 4 e os 12 participantes, sendo o mais comum e ideal um grupo entre 6 a 8 elementos. Grupos demasiado grandes são difíceis de gerir e as pessoas perdem-se na multidão; equipas demasiado pequenas não permitem interacções de grupo constituindo verdadeiras ilhas.

Uma vez o grupo constituído há que eleger um porta-voz (o que não é necessariamente o líder), distribuir tarefas e equipamentos e delinear estratégias.

Monitores

Selecciona monitores com formação adequada e credenciados. Estes devem saber trabalhar bem em conjunto e inclusive debaixo de condições adversas. Mantém uma relação adequada de monitores/participantes. Esta relação pode variar consoante o risco envolvido em cada actividade ou as características técnicas do terreno ou obstáculos, o nível de competência do grupo ou o propósito da actividade. Um mínimo de dois monitores por grupo é o desejável. Um vai na frente do grupo e serve de guia o segundo vai na traseira certificando-se que ninguém se perde ou se aleija. Em situações de grupos escolares um dos monitores pode ser substituído pelo professor acompanhante desde que este esteja ciente que tem esta função a desempenhar e de que capacidades e competências para tal. Em obstáculos de manobras com cordas são necessários monitores suficientes para cada uma das tarefas a executar. De forma a não se demorar o dobro do tempo, pelo facto do monitor estar a fazer o trabalho de dois monitores e para não deixar de garantir a segurança por estar a tomar atenção numa acção quando devia estar a dar atenção a uma outra, ex. estar a vestir arneses aos participantes quando devia de estar a fazer “travão” no slide.

O monitor deve ser um bom técnico, mas não se deve ficar por aqui. Deve igualmente ser um bom líder, sabendo ser directivo sem ser autoritário, bem como ser um bom pedagogo de forma a que as suas acções contribuam de forma positiva para a persecução dos objectivos delineados. Desta forma o monitor deve estar bem informado sobre todos os aspectos da actividade e não ser só um peão num tabuleiro de xadrez em que cujas jogadas participa mas não compreende.

Equipamento

O equipamento a utilizar num multiactividades divide-se em três listas: pessoal, colectivo e de segurança.

Distribui aos participantes uma lista de equipamento que devem trazer e outra do que não devem trazer (rádios, walkmans, bebidas alcoólicas, drogas, sapatos de sola, etc.). Certifica-te que os participantes trazem indumentária apropriada e equipamento pessoal adequado. Faz a lista do material colectivo e certifica-te que cada item está completo (ex. tenda + prumos + estacas). O equipamento de segurança e ou técnico deve cumprir com as normas de segurança da UIAA, EN, EU ou outras que se lhe apliquem, devem ser inspeccionados periodicamente e sempre antes e depois da actividade, bem como deve ser um quantidade suficiente para não criar grandes compassos de espera.

Água e Comida

Certifica-te que tanto monitores como participantes têm mantimentos suficientes. Distribui sacos com alimentos e líquidos para o decorrer da actividade. Nalguns postos tem água extra, especialmente em dias de calor. Evita ao máximo a desidratação e baixos níveis de glicose no sangue. Se necessário reserva no programa horas de paragem para comer. Lembra-te ainda que depois de comer o esforço físico deve ser menos intenso e as actividades na água podem levar a congestão e consequente afogamento.

Calcula o número total de pessoas envolvidas na actividades e a partir daí o número de pequenos almoços, almoços, jantares e snacks para cada uma. Prepara menus que satisfação o desgaste físico provocado no decorrer da acção. Em actividades de vários dias, elabora menus variados de forma a não se criar uma monotonia alimentar, que pode conduzir a uma inibição para nos alimentar e a uma falta de energia subsequente.

Acomodações

As acomodações podem variar desde hotéis a pousadas refúgios ou parques de campismo. Certifica-te de que estão abertos, quais os custos, as suas capacidades, as distâncias aos locais da actividade, se as suas características se adequam ao tipo de grupo e se é necessário reservar com antecedência.

Transportes

Os acidentes rodoviários constituem uma das principais causas de morte no nosso país. Por vezes as actividades realizam-se em sítios longínquos, pelo que os transportes são também um factor de risco a considerar no decorrer da actividade.

Certifica-te de que os autocarros conseguem chegar com facilidade aos locais da actividade (por exemplo um autocarro de 50 lugares para se deslocar para os Capuchos, serra de Sintra não consegue subir pela rampa da Pena devido às curvas apertadas tendo que fazer um desvio de mais de 15Km para subir por outro lado), que os motorista se encontram descansados e sem terem ingerido bebidas alcoólicas, que os carros não se encontram sobrelotados ou demasiado carregados, que os estradões de terra se encontram circuláveis e sem lama, pedras ou troncos caídos, que os veículos possuem pneus sobresselentes cheios, extintores, macacos, cintas e cordas, correntes de neve, estojo de primeiros socorros e de que todo o material está devidamente acondicionado e seguro.

No caso de utilização de viaturas 4×4 fora de estrada, certifica-te igualmente se não existem restrições à sua passagem e arranja as devidas autorizações para a sua circulação, bem como instrui os condutores sobre a sua conduta de condução.

Comunicações

Hoje em dia o telemóvel e o instrumento de comunicação por excelência. No entanto a sua utilização é cara e no terreno o cobertura de rede por vezes e deficiente. Pelo que o meio mais económico é o rádio (devendo o telemóvel ser um recurso e não o meio). Instrui os monitores sobre como falar ao rádio, fazendo um esforço para limitar as comunicações via rádio ao mínimo indispensável. As mensagens devem ser curtas, claras e precisas. Em caso de necessidade pedir ao receptor para re-confirmar a mensagem. A comunicação pode ser aberta ou fechada. Na comunicação todos os rádios podem falar com todos os rádios, no caso da comunicação fechada os rádios só podem falar com o rádio central podendo este falar com todos os rádios.

Atenção à utilização do rádio junto dos participantes, pois por vezes estes ouvem informações que não lhes devem ser facultadas ou que podem por em descrédito a competência da organização.

Ter em atenção se o rádio utilizado necessita de licença de utilização e se na frequência utilizada não se encontram outros rádios em comunicação.

A comunicação é extremamente importante em situações de emergência, na elaboração de planos de contingência, ou na simples montagens e desmontagens da actividade, bem como no controlo de passagem dos participantes. Não esquecer de levar as baterias dos rádios carregadas para a actividade e de as recarregar em caso de estadia prolongada.

Orçamento

No orçamento considera os seguintes elementos: custos dos veículos (incluindo aluguer, combustível, óleo, ferramentas, quilometragem, condutores, parking, portagens), comida por pessoa por dia, equipamento (incluindo compra, aluguer e reparações), autorizações (taxas e licenças de utilização), custos dos monitores (incluindo remuneração, despesas pessoais e compensações) e diversos (tais como aluguer de instalações, telefone, publicidade, mapas e faxes por exemplo). Faz o balanço destas despesas com o dinheiro que entra dos participantes e apoios ou patrocínios. Uma vez que o número de participantes pode flutuar considera uma margem de manobra de forma a não faltar nada. Tem sempre um fundo de maneio para despesas que possam decorrer da viagem e um cartão de crédito para despesas inesperadas.

Nota do Editor: Este artigo foi publicado originalmente em 2 de Dezembro de 2002.

Um comentário para “Planear um Multiactividades”

  1. hugo baldaia Says:

    olá!

    se eu quiser tornar-me num monitor de multiactividades onde terei que me informar?

    obrigado.

Deixe um comentário