Associação Desnível

Associação de Desportos de Aventura Desnivel

Entidade sem fins lucrativos, com Estatuto de Utilidade Pública

A Segurança em Montanha

Foto: Resgate nos Galaios, Serra de Gredos Autor: Francisco Silva

por Rui Rosado, com a colaboração de João Garcia e Francisco Silva .

Há já algum tempo que a Desnível vem promovendo cursos de Montanhismo, Escalada e de Alpinismo, iniciando anualmente várias dezenas de pessoas no mundo da montanha.

Um dos principais objectivos da formação ministrada pela Associação, é dotar os formandos de competências para praticar com autonomia e com segurança estas modalidades desportivas.

No entanto, a Desnível está consciente de que a formação não pode ser um momento isolado. Assim, cada vez mais se investe na realização de estágios e de acções de especialização de forma a aprofundar os conhecimentos adquiridos e acompanhar a prática das modalidades.

Apesar de todo este empenho, e como estamos perante desportos de risco, não é possível evitar a existência de acidentes. Infelizmente alguns apresentam consequências extremamente graves, como o ocorrido recentemente com um dos associados da Desnível. Embora o acidente tenha ocorrido durante uma actividade enquadrada por outro clube, a Desnível, vem desta forma, aproveitar este momento para enfatizar um conjunto de normas e de conhecimentos que, apesar de já não serem novos, acha importante reforçar e passar a todos aqueles que frequentam as montanhas, para que façam as suas reflexões antes das suas próximas aventuras.

Sendo o montanhismo um desporto cada vez mais acessível, com maior oferta de equipamentos e possibilidades de formação, o número de praticantes tende a subir, assim como o número potencial de acidentes. Este foi um inverno que se revelou trágico para o montanhismo nacional, com o seu quarto acidente mortal. O ano passado perdemos dois companheiros, um escalador e uma montanhista. Na década de 80 houve um outro falecimento em montanha. Este ano em Espanha, entre Janeiro e Fevereiro, faleceram 18 pessoas em montanha, o dobro do ano anterior. Estes acidentes relacionaram-se basicamente com alterações súbitas das condições meteorológicas ou devido a estados do tempo extremos.

É fundamental analisar estes acidentes, procurando encontrar as suas causas e as medidas que se deveriam ter tomado para o evitar, de forma a que no futuro se possa adoptar essas mesmas medidas em circunstâncias semelhantes.

Nos desportos de montanha grande parte dos riscos podem ser calculados. Quer dizer que existem uma série de perigos associados com a sua prática sendo nosso dever aprender a reconhecer esses perigos, calcular os riscos a eles associados, saber evitá-los e lidar com eles caso aconteça um acidente. Antes de mais, os praticantes devem conhecer os riscos associados à prática desta modalidade.

É sabido da maioria que os riscos se dividem em objectivos e subjectivos, que também poderíamos classificar respectivamente de naturais e humanos. Sendo a maioria, perigos objectivos ou naturais, é fundamental tomar conhecimento desses riscos potenciais e agir na prevenção primária. Por exemplo, informarmo-nos das condições meteorológicas e em função das previsões, analisar os perigos possíveis com que nos podemos deparar na montanha e os riscos que comportam (ex.: tempestades – risco de electrocussão; ventos fortes – risco de congelações, etc.).

Quando as condições meteorológicas indicam que os risco são grandes e, apesar do nosso sexto sentido nos querer sempre convencer que os acidentes só acontecem aos outros ou só se passam nos filmes, há que tomar a decisão mais acertada: adiar a saída para a montanha para um dia melhor!

Os perigos subjectivos ou humanos estão directamente associados ao estado pessoal, quer físico quer psíquico. Se estamos adoentados, se não estamos em boa forma física, se estamos desatentos, sonolentos, nervosos, cansados, etc., devemos parar a nossa actividade e procurar uma solução para o problema. Esta, pode simplesmente passar por dormir um pouco, comer e beber para repor energias, ou inclusive desistir do nosso cume ou via e descer. Criar e levar a cabo um plano de treino para atingir um objectivo específico é uma boa garantia para evitar algumas destas amarguras e dissabores. Antes de mais devemos saber o que pretendemos “da montanha”. Tratam-se de questões pessoais e interiores, cada um tem que aprender a “ouvir” o seu corpo e espírito e decidir o que é melhor para si em termos de longo prazo.

É igualmente importante aprofundarmos os nossos conhecimentos através da leitura de bibliografia específica (a biblioteca da Desnível está à disposição dos seus sócios gratuitamente), quer através de formação na qual, pessoas mais experientes, nos ensinam as técnicas e procedimentos mais correctos e nos passam a sua experiência acumulada (aprende-se muito acompanhando outros mais experientes).

Devemos esforçar-nos continuamente para ganhar a consciência correcta dos perigos e evitar factores que inibam a nossa análise dos perigos existentes. Talvez o maior factor inibidor que existe seja o nosso orgulho e egocentrismo, que normalmente nos pressiona para continuar quando tudo parece indicar que o melhor é voltar para baixo.

Devemos, aprender o que fazer se formos surpreendidos, por exemplo, por uma tempestade eléctrica, mas sobretudo devemos aprender o que fazer para evitar sermos surpreendidos por essa mesma tempestade. Ou seja, orientar a nossa conduta em montanha de forma a prevenir e não a querer remediar.

A orientação

Para um praticante de desportos na natureza saber orientar-se deve ser uma competência básica, quase um instinto básico de sobrevivência. O mesmo será dizer que saber meter mudanças é uma competência básica para um condutor.

Nas serras de Gredos e da Estrela, neste ano já decorreram acções de busca e salvamento de montanhistas que se perderam.

Em primeiro lugar há que dar graças à excelente cobertura de rede telemóvel existente nessas paragens; em segundo há que puxar as orelhas aos perdidos que não sabem estudar o mapa e que põem em risco a vida dos agentes da GNR, da Guardia Civil e dos Bombeiros Voluntários, que se sujeitam a perigos desnecessários para salvar aventureiros mal preparados.

Em casa, e não no local depois de estar perdidos, é que devemos estudar o mapa e analisar o percurso que se vai efectuar. Anotar pontos de referência, azimutes, coordenadas, distâncias, altitudes de pontos de passagem da nossa rota e toda a outra informação que acharmos importante.

É importante ter ao dispor os mapas mais actualizados e com o maior detalhe possível. Os mapas militares portugueses cobrem a totalidade do país numa escala 1:25000, estando o exército a fazer um esforço para actualizar a informação contida nestes, pelo que se ainda existem diversos mapas algo desactualizados.

A Serra da Estrela (zona da Torre) corresponde à folha 223 LORIGA (Seia). Vendem-se nas boas lojas de artigos de montanha e no Instituto Geográfico do Exercito situado na Avenida Dr. Alfredo Bensaúde, Olivais Norte, Lisboa (igeoe@igeoe.pt).

A carta de Gredos pode ser consultada na sede da Desnível e adquirida a caminho de Gredos na bomba de gasolina de Navaredonda de Gredos (aberta das 08:00-22:00h) – “Parque Regional de la Sierra de Gredos – Mapa Topográfico Excursionista” apresentando dois mapas, um de 1:135000 e outro à escala de 1:25000. É aconselhável analisar o mapa e o percurso programado em particular, antes de subir à montanha.

Informação GPS e Azimutes

Para aqueles que possuem GPS apresentamos aqui um conjunto de pontos de referência – waypoints – de forma a poderem navegar entre a Plataforma e o Refúgio Elola. Esta informação é sumária, existindo entre os pontos apresentados em baixo, perigos variados a ter em conta, tal como: lagoas, vertentes geladas e inclinadas, precipícios, etc. As coordenadas geográficas e azimutes aqui apresentados podem representar uma ajuda importante, mas é necessário saber utilizar esta informação adequadamente e estar consciente das suas limitações, pelo que, a Desnível não assume a responsabilidade por acidentes ocorridos nestes locais tendo sido utilizada esta informação, que divulgamos a titulo de referência.

Esta informação é disponibilizada porque são muitos aqueles que se têm perdido no percurso entre o estacionamento e o circo de Gredos (Refúgio Elola) ou na volta. Adicionalmente ou em substituição poderemos navegar por azimutes (com tempestade e nevão forte a visibilidade é nula e ou nos valemos de um GPS ou de azimutes tirados anteriormente).


Waypoints da plataforma ao refúgio.

1 – Plataforma
N 40º16’31.3”
W 05º13’56.1”
2 – Pluviometro
N 40º16’10.6”
W 05º14’20.6”
3 – Ponte
N 40º16’12.8”
W 05º14’46.0”
4 – Barrerones-1
N 40º16’12.7”
W 05º15’40.4”
5 – Barrerones-2
N 40º16’04.1”
W 05º16’00.9”
6 – Garganta
N 40º15’01.0”
W 05º16’06.7”
7 – Ref. Elola
N 40º15’01.0”
W 05º16’49.0”


Azimutes da Plataforma para o Circo de Gredos

Plataforma (1780 m) – Ponte (1930 m): Az. 245º
Ponte(1930 m) – Barrerones (2150 m): Az. 260º
Barrerones (2150 m) – Laguna Grande (1940 m): Az. 210º


Azimutes do Circo de Gredos para a Plataforma

Laguna Grande (1940 m) – Barrerones (2150 m): Az. 30º
Barrerones (2150 m) – Ponte (1930 m): Az. 80º
Ponte (1930 m) – Plataforma (1780 m): Az. 55º


As Avalanches

As avalanches são deslocamentos de massas de neve que entram em desequilíbrio e se precipitam das encostas das montanhas. Temos três tipos distintos de avalanches, tendo em conta o tipo de neve:

  • de neve recente
  • de neve húmida
  • de Placa

Nevão após nevão, os flocos que se acumulam nas vertentes, condicionados por diversos factores ambientais (temperatura, humidade, vento, etc.) consolidam-se em camadas de diferentes tipos de neve. Como a neve nas pendentes tende a descer por efeito da gravidade, quando entra em desequilibro, acontece que as diferenças de densidade entre as camadas faz com que umas sirvam de superfície de deslizamento das outras.

As avalanches de neve recente dão-se logo após grandes nevões, com temperaturas frias (- 5Cº) em que a grande acumulação de neves nas vertentes mais inclinadas das encostas não se segura e desliza montanha abaixo, com grande poder destrutivo. Do total de avalanches existentes estas constituem cerca de 80 %, resultando destas cerca de 12,5% do total das fatalidades provocadas por avalanches.

As avalanches de neve húmida dão-se devido a altas temperaturas e chuvas que provocam a desagregação das camadas superiores das inferiores. São normalmente constituídos por blocos redondos, sendo avalanches típicas das vertentes sul ou primaveris. Do total de avalanches existentes estas constituem cerca de 10%, resultando destas cerca de 14,5% das fatalidades.

As avalanches de placa dão-se normalmente em vertentes abertas ou convexas e ocorrem aquando da perda de coesão interna entre placas (em equilíbrio instável) devido a sobrecargas exercidas sobre elas, dando-se normalmente durante a passagem de esquiadores ou montanhistas. São as avalanches que provocam mais acidentes. Do total de avalanches existentes estas constituem cerca de 10%, resultando destas cerca de 73% das fatalidades.

Outros tipos de avalanches são as originadas pelas rupturas de cornijas ou queda de seracs, como exemplo a morte de 8 andinistas que escalavam o Alpamaio (Perú, 2003) e que foram esmagados por um serac, que há vários anos estava em vias de cair.

Na montanha, ao chegarmos a uma pendente suspeita devemos analisar os seguintes elementos: Avaliar a inclinação da pendente (a partir dos 20º suspeitar), exposição ao vento, orientação (exposta ao sol/sombra), tipo de vertente (com/sem ancoragens naturais, convexa, bosque, ravina, goulote, corredor, natureza do solo subjacente). Esta analise serve-nos para avaliar a possibilidade de ocorrência de avalanches nesse local.

Segundo um estudo realizado na suíça por Brugger e Falke (1992), a partir de 332 casos de pessoas totalmente soterradas em avalanches entre 1981 e 1989, concluiu-se que existe 93% de hipótese de sobreviver durante os primeiros 15 minutos após a avalanche. Entre os 15 e os 45 minutos, decorre uma fase de asfixia, decrescendo as hipóteses de ser encontrado com vida dramaticamente de 93% para 26%. Após os 90 minutos ocorreram casos de morte por hipotermia, sendo as probabilidades de ser encontrado com vida muito escassas. Assim, devemos estar bem treinados e equipados para socorrer rapidamente um colega nosso em apuros numa avalanche. Porque as melhores hipóteses de o salvar são as imediatamente seguintes à avalanche e não uma hora depois com a chegada da equipa de socorro (contando com uma excelente capacidade de resposta por parte desta equipa).

Após grandes nevões ou com índices marcados, fortes ou muito fortes devemos utilizar as ARVAS (aparelhos de resgate de vitimas de avalanches). Estas tratam-se de aparelhos emissor/receptores que funcionam numa frequência universal. Utilizam-se na posição de emissor e, aquando de uma avalanche, muda-se o aparelho para recepção de forma a poder-se localizar o companheiro enterrado na neve.

Com a ARVA, uma pá de neve e uma sonda consegue-se localizar uma vitima em cerca de 11 minutos. Com a ARVA e a pá de neve localiza-se em cerca de 25 minutos. Somente com a ARVA entre uma a duas horas. Passada a primeira hora as possibilidades de sobreviver diminuem drasticamente. O tempo que se poupa utilizando o equipamento adequado faz muitas vezes a diferença entre a vida e a morte.

Escala Europeia de Risco de Avalanches

É importante também conhecer e saber interpretar a escala europeia de risco de avalanches. Esta classifica de 1 a 5 o grau de possibilidade de ocorrência de avalanches. No entanto, é de referir que não existe risco zero. Um risco débil ou moderado não garantem que não ocorram avalanches, indicam apenas que o risco é baixo ou fraco.

Índice de Perigo Estabilidade do manto nevoso Indicações e recomendações
 1  Débil Estabilizado na maioria das vertentes. Excursões e ski sem restrições
 2  Moderado Estabilizado de forma moderada nas vertentes inclinadas. Nas restantes está bem estabilizado. Planificação prévia, escolher os momentos ideais para atravessar zonas críticas. Recomenda-se prudência.
 3  Marcado Entre moderado e debilmente estabilizado. Evitar pendentes inclinadas (> 30 º). Requer-se muita experiência e capacidade de avaliação do risco de avalanchas.
 4  Forte Manto debilmente estabilizado. Excursões devem limitar-se a encostas de fraca inclinação. As zonas baixas de pendentes de grande inclinação também estão sujeitas às avalanches.
 5  Muito Forte Instabilidade geral do manto nevoso. Não se deve fazer excursionismo ou ski.

Onde recolher informação meteorológica

Devemos estar sempre bem informados e atentos ao estado e evolução das condições meteorológicas. Na Internet ou através do telefone podemos saber o estado do tempo e da neve em quase qualquer ponto do mundo. A prevenção primária é o primeiro passo a tomar para evitar avalanches. Se o risco de avalanches é elevado, ou se ocorreu um forte nevão ou está demasiado calor o melhor será evitar as vertentes expostas

Telefones para informação das condições da neve na Europa:

  • França: 36 68 10 20
  • Alemanha: + 49 8912101210
  • Áustria (Tirol): + 43 5121588
  • Escócia: + 44 1463713191
  • Espanha: Navarra – +34 906365331; Huesca – + 34 906365332
  • Itália: + 39 461230030
  • Eslovénia: + 38 6619822
  • Suíça: + 41 21187

Temos ainda vários sites com a previsões meteorológicas e estado da neve. Aconselha-se a pesquisar o instituto de meteorologia do país para aonde se vai, ou procurar o site de estações de esqui que fiquem nas proximidades dos destinos. Várias revistas e lojas de escalada possuem igualmente está informação disponível nos seus sites.

Alguns exemplos:

Conclusão

Este artigo não pretende ser exaustivo, tendo como principal objectivo levar os leitores a reflectir um pouco, passar alguma informação útil e alertar para os perigos dos desportos de montanha. Lembrar que a maioria dos acidentes ocorrem não por falhas técnicas ou descuido mas por más decisões e escolhas erradas que redundam em acidentes.

Nota do Editor: Este artigo foi originalmente publicado a 2 de Abril de 2004.

3 Comments for this entry

  • Rogério Morais diz:

    A Desnível deveria equacionar se a certificação básica em primeiros socorros não deveria ser obrigatória nos vários cursos de escalada, alpinismo e montanhismo.

  • Júnior diz:

    Muito bom este artigo, foi de grande valia pessoal. Obrigado.

  • pherculano diz:

    Bom artigo sobre segurança em montanha.

    Em relação a essa mesma segurança penso que a coordenada 6 – Garganta, do caminho para o refugio Elola (Gredos) não faz parte desse trajecto ou então não está correcta…

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