Canyoning na Madeira
A Ilha da Madeira apresenta grande potencialidade para a prática de canyoning devido à abundância de itinerários, a uma paisagem impar e a ambientes de grande imponência.
A composição geológica da ilha de origem vulcânica e o seu relevo muito acentuado, associado às suas condições climáticas, condicionam em grande parte o tipo de canyonings existentes, caracterizados por desníveis acentuados e abundância de cascatas, muitas vezes com dimensões que ultrapassam os 50 metros. A maioria dos percursos de canyoning nesta ilha desenvolvem-se em vales muito encaixados rodeados de uma vegetação luxuriante.
Estes ambientes imponentes são extremamente exigentes, pelo que os praticantes desta modalidade tem de estar preparados fisicamente, tecnicamente e psicologicamente para poderem neles realizar as actividades em autonomia e segurança.
A maioria dos itinerários de canyoning na Madeira são pouco aquáticos e lúdicos, pois não abundam as piscinas profundas. No entanto a Madeira constitui um santuário para a prática desta actividade devido quer à beleza e imponência das paisagens, quer à existência de inúmeros percursos, muitos deles por explorar e equipar.
O clima da ilha contribui igualmente para enriquecer a oferta de possibilidades para praticar canyoning, pois sendo ameno permite a pratica desta modalidade durante todo o ano e a existência de duas zonas bem distintas em relação à distribuição de precipitação aumenta a oferta e as possibilidades.
Devido às suas características, a maioria dos itinerários de canyoning não se proporciona à pratica desportiva por pessoas que não dominem bem as técnicas de manobras de cordas e de canyoning em especial. Contudo, para aqueles que apresentam formação adequada os desafios são apelativos e a aventura será um estímulo que acentuará o sabor da descoberta de paisagens impares.
Os riscos associados à dificuldade de acesso, ao desconhecimento dos itinerários, à inexistência ou insuficiência de equipamento, de queda de pedras e/ou a uma rocha muito cortante (risco de ruptura das cordas) não deverão ser menosprezados por quem escolher a Madeira para praticar canyoning.
Existem inúmeros canyonings equipados na ilha. O livro “Canyons de Madeira – Descentes Sportives et Randonnées”, da autoria de Antoine Florin apresenta 37 croquis de percursos, muitos deles abertos pelo autor.
Nota do Autor: Para encomendar o livro “Canyons de Madeira – Descentes Sportives et Randonnées” envie um email para: canyon.madeira@orange.fr
A Associação Desnível em parceria com o Clube Maresia e mais recentemente com o Clube Naval do Seixal, desde 2003 que tem vindo a desenvolver estágios na ilha com periodicidade bianual (2003, 2005, 2007).
Em baixo indicam-se alguns dos percursos realizados, tendo alguns sido abertos e equipados.
Itinerários de Canyoning
Ribeira Funda

Localizada na encosta norte da ilha, a cerca de 6 km a SE de Porto Moniz, esta ribeira proporciona um dos itinerários mais acessíveis e bonitos da Madeira.
Uma escadaria permite subir pela encosta até à aldeia da Ribeira Funda em cerca de 30 minutos. A descida, que demora entre 2 a 3 horas, permite descobrir um vale bastante encaixado e de grande beleza. O segundo ressalto, com quase 60 metros, é particularmente imponente.
Este canyoning, embora acessível, exige bons conhecimentos técnicos e grande cuidado com a abrasão das cordas e com a queda de pedras. O percurso termina numa bela cascata na costa norte junto à estrada.
Quase todos os participantes do estágio tiveram oportunidade de realizar este canyoning.
Ribeira da Pedra Branca

A apenas 1 km a SE da Ribeira Funda, este canhão com uma bacia vertente reduzida, rivaliza em beleza com o vale da Ribeira Funda.
O acesso, que se inicia na Fajã da Parreira, não é evidente e é relativamente fechado por vegetação.
A maior queda de água, com 55 metros e em forma de tubo, é o ex-libris deste itinerário relativamente acessível e que foi equipado durante o estágio. Faltará apenas equipar a última cascata já que a amarração tem sido feita numa árvore algo duvidosa sendo necessário fazer uma segurança de reforço em redor de um bloco.
A duração média deste percurso é de 3 a 4 horas incluindo o acesso a partir da Fajã.
Ribeira do Lajeado (Rabaçal)

Com um excelente acesso a partir do cruzamento para o Rabaçal, durante cerca de 3 km por uma vereda que leva directamente à Ribeira, este itinerário desenvolve-se numa sucessão de piscinas de água cristalina e de ressaltos, transponíveis por salto ou rapel, até a uma espectacular cascata com 75 metros sobranceira à Lagoa do Vento.
Durante o estágio a emoção provocada pela verticalidade foi intensificada pelos danos evidentes nas cordas. Em consequência, duas equipas foram forçadas a interromper a descida antes da cascata de maior extensão com que termina este percurso.
Este incidente contribuiu para confirmar o que já vinha sendo dito pelos responsáveis do estágio relativamente aos riscos adicionais do canyoning em ambientes com rochas basálticas onde a abrasão pode levar à rotura das cordas. Os cuidados dos participantes posteriormente a este incidente, na colocação das cordas e na execução dos rapeis, permitiu evitar novas ocorrências deste tipo.
Ribeira do Alecrim
Muito perto, a partir da estrada para o Rabaçal, encontra-se esta ribeira que se sabia estar já equipada.
Depois de diversas tentativas infrutíferas para encontrar o acesso para a Ribeira da Água Negra (25 Fontes), uma das equipas decidiu descer a Ribeira do Alecrim. No entanto, verificaram que alguém terá retirado diversas plaquetas deste percurso, tendo este lamentável incidente sido ultrapassado porque a equipa cumpriu as normas de segurança e levava consigo um kit de equipamento que se tornou assim indispensável.
Este itinerário, geralmente com pouca ou nenhuma água, tem muitas escapatórias e ressaltos, sendo os dois maiores de cerca de 25 metros.
Ribeira do Seixal

Este percurso localiza-se entre a levada do Seixal e o Chão da Ribeira. Quatro grupos (cerca de 24 praticantes) realizaram este itinerário que já se encontrava equipado.
Este canyoning de grande beleza, num vale muito encaixado, desenvolve-se em plena floresta Laurissilva.
É de realçar a qualidade e abundância de água, a par com a beleza da paisagem.
A saída é pela levada na margem esquerda. Há ainda a possibilidade de subir por uma vereda até ao inicio do canyoning, mas só deve ser feito por conhecedores!
A descida desta ribeira é restrita devido a uma riqueza ambiental ímpar e por se localizar em pleno Parque Natural da Madeira.
Ribeira Seca ou do Paúl

O início deste percurso é feito a partir da vereda que desce do hotel dos Prazeres para o Paúl do Mar e que termina na praia.
Este é um itinerário de dificuldade elevada e com equipamento relativamente desadequado.
Durante o estágio foi realizado por duas equipas de 5 praticantes cada. Infelizmente, nesta época do ano, a água apresenta-se relativamente poluída e com baixo caudal pelo que estas equipas encontraram uma situação pouco agradável.
Percurso muito imponente, com duas cascatas de aproximadamente 100 metros e uma de 50 metros, termina directamente na praia. A vereda atravessa a ribeira antes dos dois últimos ressaltos.
Ribeira dos Moinhos

Localizada próximo da Ponta do Pargo, esta ribeira foi uma das grandes descobertas durante o estágio. A abertura foi realizada por uma equipa de seis pessoas. Após uma aproximação de cerca de 30 minutos a partir da estrada, o primeiro obstáculo é uma cascata com cerca de 140 metros, que foi equipada com dois fraccionamentos. A ribeira termina na praia de calhau e o percurso de regresso só é possível se a maré não estiver cheia e o mar relativamente calmo.
O regresso é feito por uma vereda quase imperceptível e vertiginosa, com cerca de 400 metros de desnível, e que liga a Fajã Nova à aldeia de Lombada Velha. Alternativamente pode continuar-se até à Quebrada Nova e apanhar o teleférico (atenção às horas pois a marcha é longa).
Como nota negativa é de referir a má qualidade da água e a existência de algum lixo.
Ribeira do Tristão

O Homem é capaz do melhor e do pior, e no Tristão o que fez é uma tristeza! Durante anos esta ribeira foi utilizada como vazadouro de lixo municipal e as marcas deixadas estão espalhadas ao longo de todo o seu percurso até à foz. Já tínhamos conhecimento desta situação, mas desta vez, numa tentativa de descobrir um outro percurso, uma equipa acabou por entrar num dos afluentes e abrir e equipar este itinerário.
A imponência geológica e uma floresta Laurissilva bem conservada são grandes atractivos, mas o desalento resultante das marcas sucessivas presentes ao longo da ribeira do crime ambiental perpetrado por muitos anos impede que se usufrua condignamente da riqueza deste vale. Serve de alerta e de motivação para um potencial projecto de recuperação futuro a desenvolver com as parcerias apropriadas. Ficou a promessa, nossa e de alguns responsáveis de organismos regionais e locais de desencadear acções para corrigir o mal feito.
Ribeira da Cruz

Situada na vertente NW da ilha, esta ribeira formou um dos principais vales desta encosta mas, paradoxalmente encontra-se quase seca durante o período estival.
O percurso inicia-se na ponte da estrada que liga o Porto Moniz à Ponta do Pargo (km 112,5), aos 730 metros de altitude e termina no mar.
Devido à sua extensão, há que contar com um dia preenchido (6 a 7 horas, em média) e 16 rapeis, sendo o maior de 70 metros.
O equipamento é insuficiente já que muitos dos pontos tem só uma ancoragem.
Há também a lamentar a existência de algum lixo ao longo da ribeira, que vai sendo atirado da ponte no inicio do percurso. O regresso aconselhado é seguir a costa pelo calhau até à Quebrada Nova (45 min) e subir no teleférico (atenção às horas de funcionamento!).
Ribeira da Vaca

Este canyoning é um Verdadeiro monumento à verticalidade! Localizada a SW da Lombada Velha (Ponta do Pargo), esta ribeira salta dos 350 metros de altitude para o calhau (praia) em apenas dois ressaltos. Vertiginoso? Não, o primeiro ressalto tem 225 metros!
Foi o fecho do estágio com chave de ouro, por uma equipa que abriu e equipou este itinerário: Francisco Silva, Paulo Alves, Maria do Céu Almeida, Pedro Pacheco, Palhete e Jorge Câmara.
A primeira cascata tem três troços (55m + 90m + 80m) e a segunda cascata tem 80 metros. A saída é pela vereda Fajã Nova – Lombada Velha ou pelo calhau costeiro até ao teleférico da Quebrada Nova (contar com 1h30 de marcha, no mínimo).
Fotografia: Francisco Silva e Maria Céu Almeida



