Socorrismo em Canyoning

por Francisco Silva e Cristina Lourenço

Fazer canyoning é partir à descoberta de lugares paradisíacos rodeados por misteriosos labirintos, onde o leito de um rio ou ribeira, atinge uma importância capaz de abstrair o utilizador de outro lugar comparável.

No entanto, como em qualquer outra actividade exercida ao ar livre, existem perigos que por falta de conhecimentos técnicos e/ ou inexperiência podem pôr em risco a vida humana.

Sabemos que, mesmo para quem tem formação inicial em Primeiros-Socorros, este só deve actuar em casos simples ou de emergência e se não existir a possibilidade de o paciente ser socorrido em tempo útil por um profissional. Assim, a função do socorrista é de garantir um socorro básico e de emergência, que pode ser fundamental para salvar vidas.

Em caso de acidente é necessário manter a calma dos elementos do grupo, o conforto do sinistrado e procurar desenvolver os mecanismos necessários para que o socorro se efectue por profissionais de forma rápida e eficiente.

No entanto, devido à dificuldade de acesso aos locais o socorrista pode ver-se confrontado com a necessidade de desempenhar tarefas que à partida deveriam estar reservadas a especialistas, com a finalidade de garantir que o socorro se efectue em tempo aceitável, evitar o agravamento da situação e, em casos graves, procurar manter os sinais vitais do sinistrado.

Em qualquer dos casos, os meios de resgate e de socorro por profissionais devem ser activados sempre que necessário e o mais urgente possível.

Neste artigo, pretende-se aflorar de forma sumária, os procedimentos a tomar, nas situações mais comuns que podem ocorrer ao descer um canyon.

1. Queda

Devido ao contacto permanente com a água, salvo algumas excepções específicas do rio, o piso torna-se escorregadio o que obriga a uma atenção redobrada na forma como andamos e saltamos.

1.1 Feridas

Socorro

  • Lavar com soro fisiológico
  • Cobrir com compressa esterilizada

1.2 Suspeita de membros fracturados

Socorro

  • Se possível retirar a vítima do contacto com a água
  • Colocá-la numa posição minimamente confortável
  • Expor o local, cortando o fato de neoprene/roupa se for preciso
  • Tentar imobilizar a articulação acima e abaixo do local ferido
  • Caso haja topos ósseos à vista: lavar com soro fisiológico e cobrir de forma a manter húmida essa região
  • Se possível transportá-la ou pedir ajuda via 112 (accionar os meios de socorro adequado, equipas de resgate)

2. Afogamento

Ao descer uma cascata, devido ao volume do caudal e/ ou inexperiência, pode ocorrer uma dispneia (dificuldade respiratória).

Em rios com caudais significativos os movimentos de água e sifões podem criar situações iminentes de afogamento

Como evitar

  • Criar o canal de respiração, inclinando a cabeça para baixo e respirando pela boca de forma a controlar a introdução de água.
  • Evitar cascatas com grande caudal e evitar zonas com movimentos de água perigosos

Socorro

  • Descer a vítima rapidamente ou retirá-la da àgua, pois existe o perigo de afogamento e de choque

Se a vítima continuar com falta de ar:

  • Colocá-la numa posição minimamente confortável
  • Animar/ acalmar a vítima
  • Aquecê-la (cobertura de sobrevivência)

3. Diferenças Térmicas

O canyoning pode ser muito desagradável se o utilizador não estiver preparado para resistir às baixas temperaturas da água e/ ou ao excessivo calor corporal provocado pelas caminhadas num fato demasiado apertado.
Por isso a escolha do fato (tamanho, espessura e modelo) é uma das mais importantes decisões a tomar antes de começar a realizar esta actividade.
Consultar: “Equipamento necessário para a prática de Canyoning”.

3.1 Queimaduras pelo Frio

  • Palidez
  • Cor rocheada nas extremidades (cianose)
  • Insensibilidade
  • Rigidez
  • Formigueiro

Socorro

  • Se possível retirar a vítima do contacto com a água
  • Aquecê-la (cobertura de sobrevivência)
  • Animar/ acalmar
  • Ingerir líquidos quentes

3.2 Hipotermia

  • Arrefecimento geral
  • Temperatura abaixo dos 35º

Socorro

Aquecimento global da vítima, retirando se possível a roupa húmida e substituir por roupas secas ou utilizar manta de sobrevivência

3.3 Choque térmico

Variações rápidas de temperatura
Falta de irrigação de oxigénio no cérebro

  • Suores frios
  • Palidez
  • Tremuras
  • Tonturas
  • Taquipneia (respiração rápida regular)
  • Taquicárdia (batimentos cardíacos rápidos)
  • Algumas situações, paragem cardio respiratória

Socorro

Inconsciente:

  • Se respira, colocá-la em posição PLS
  • Se não respira, iniciar manobras de suporte básico de vida
  • Transportar a vítima ou pedir ajuda via 112 (pode-se colocar a possibilidade de contactar alguém que tenha conhecimentos técnicos em resgate)
  • Verificar sinais vitais minuto a minuto
  • Aquecimento global do corpo

Consciente:

  • Se possível retirar a vítima do contacto com a água
  • Deitar a vítima
  • Desapertar fato/ roupa
  • Elevação dos membros inferiores
  • Aquecê-la (cobertura de sobrevivência)
  • Animar/ acalmar
  • Ingerir líquidos quentes

3.4 Golpe de calor

  • Ambientes quentes e húmidos (efeito sauna) Pele pálida, suada e fria
  • Pessoa apática
  • Desidratação
  • Náuseas
  • Vómitos
  • Dores de cabeça

Socorro

  • Tornar o ambiente ventilado, retirar ou desapertar fato/ roupa
  • Proceder ao arrefecimento corporal
  • Se a vítima não entrar/ estiver em choque, dar água em pequenas quantidades

3.5 Golpe de calor

Ao percorrer um canyon com uma exposição prolongada com fato de neoprene e com pouca humidade.

Socorro

  • Manter uma atitude calma e serena
  • Retirar a vítima do ambiente hostil
  • Proceder ao arrefecimento hostil
  • Proceder ao arrefecimento corporal

4. Manobras de Suporte Básico de Vida

4.1 Via aérea

Mantenha a permeabilidade da via aérea; Desaperte a roupa e exponha o tórax; Verifique corpos estranhos na boca (comida, próteses dentárias soltas, secreções, etc.)

4.2 Avalie a ventilação

Se ventilar normalmente continue o exame ou PLS

4.3 Circulação

  • Pesquise sinais de circulação
  • Pulso carotídeo
  • Mantenha a via aérea permeável
  • Pesquise se respira VOS (ver, ouvir, sentir)
  • Existência de movimentos
  • Tosse

Se a vítima não ventila, mas tem sinais de circulação…

  • Mantenha as insuflações
  • Ritmo de 10 por minuto
  • Cada insuflação com 2 segundos
  • Aguarde 4 segundos
  • Avalie de novo sinais de circulação ao fim de 1 minuto (10 insuflações)

Se a vítima não ventila, e não tem sinais de circulação…

Inicie compressões torácicas

Mantenha o rácio de 2 insuflações por 15 compressões até que:

  • A vítima recupere
  • Um médico mande parar as manobras
  • Seja substituído
  • Entregue ao técnico na unidade de saúde
  • Exaustão