Serra da Estrela – a Jóia da Coroa
por Tiago Pais
“A Jóia da Coroa do património ecológico do interior de Portugal”, foi assim que Jan Jansen designou a nossa Serra da Estrela.
Jan Jansen, é um dos botânicos contemporâneos que mais estudou a natureza da Serra da Estrela. De facto, a Serra tem características que a tornam única em Portugal, de tal modo que se encontra no imaginário da maioria dos portugueses como uma serra emblemática. Desde o tempo em que Viriato combatia os Romanos e lhe chamava Montes Hermínios, que a Serra é palco de Aventuras e Aventureiros – desde guerreiros, pastores, cientistas, caminhantes ou simples incautos – até aos dias de hoje, ajudando a criar uma aura mítica à sua volta.
A paisagem e o Homem
A paisagem actual da Serra da Estrela é o resultado de uma convivência equilibrada secular entre a actividade humana e os elementos naturais. A pastorícia e a agricultura foram durante anos parceiros respeitadores dos equilíbrios ecológicos serranos, de tal forma que passaram a fazer parte deles.
Mas os tempos são de mudanças profundas e a “Jóia da Coroa” começa a perder o seu brilho e a sua aura inexpugnável. As gentes partiram quase todas para o “oásis” das grandes cidades e as que ficam já não são capazes de defender o que é seu por direito – as suas terras na Serra:
- Estradas de alcatrão rasgam consecutivamente a paisagem “democratizando” o acesso por todos a todos os lados da Serra;
- Constroem-se casas amontoadas, que alastram dos núcleos de altitude, fazendo lembrar bairros suburbanos e por vezes ilegais, numa tentativa de “urbanizar” a natureza;
- Planeiam-se infra-estruturas de utilidade e funcionalidade duvidosas para, por ventura, serem abandonadas no futuro;
- Promove-se a fancaria e o Turismo de rápido consumo em detrimento dos produtos típicos e da visita tranquila;
- Multiplicam-se os estabelecimentos hoteleiros sem se investir na oferta diversificada de actividades, tornando a Serra da Estrela o maior dormitório de férias, depois do Algarve;
Tudo isto em nome de um pretenso desenvolvimento da região, da sua economia e da qualidade de vida das suas gentes. E tendo como alavanca o turismo e em particular o Turismo da Neve. Mas se a aposta no turismo não for sustentável, pode não passar de uma aposta efémera e comprometer inclusivé o desenvolvimento local a médio prazo.
Pseudo-desenvolvimento
A estratégia adoptada nos últimos anos pela Região de Turismo da Serra da Estrela e pela Turistrela S.A., por vezes com a colaboração de algumas Câmaras e do Governo Central, para o desenvolvimento turístico tem tido o efeito perverso de aumentar a sazonalidade e reduzir o potencial do turismo de Natureza e Rural para o qual a Serra da Estrela é naturalmente vocacionada. Por outro lado, no formato actual de desenvolvimento turístico, as populações locais pouco ou nada beneficiam dos projectos que tem vindo a ser anunciados, quer em termos económicos, quer em termos laborais:
- Quantos empregos geraram os sessenta chalés que foram construídos nas Penhas da Saúde?
- Quantos empregos geraram os teleféricos planeados dos Piornos e de Alvoco para a Torre?
- Ou da expansão da estância de esqui?
- Que benefícios reais retiram as populações destes projectos?
- Que benefícios reais retiram as populações da constante abertura de acessos à Torre?
Creio que tudo isto apenas faz com que os turistas passem pela Serra com mais rapidez, sem necessidade de se alojarem onde quer que seja ou consumir o que quer que seja: o Turismo de Consumo Rápido.
Todos estes projectos beneficiam, essencialmente, as empresas que os executam e exploram. Todos estes projectos atentam contra o direito de desfrutarmos dos espaços naturais e de um ambiente “anti-urbano”, atentam contra o direito de nos aventurarmos e de nos perdermos na Serra! Ou seja, proteger o ambiente serrano não é um capricho, não é um fanatismo. Proteger a serra é um direito legítimo que nos assiste e ao mesmo tempo um dever cívico: o de preservar para os outros aquilo que nos foi deixado.
“a mobilização e integração das populações locais e da sociedade civil em geral neste movimento é fundamental para alcançar um desenvolvimento real”
Uma Plataforma para a mobilização
Face a todos estes “ataques”, contra os quais o ICN/PNSE tem sido manifestamente incapaz de responder satisfatoriamente, alguns cidadãos mais inconformados e com vontade de mobilizar outros, decidiram criar uma Plataforma que congregasse todos os interessados nos problemas da serra. Desde Clubes e Associações a cidadãos individuais. Pois só assim se poderá alterar o rumo actual da situação.
Nasceu assim, em meados do ano de 2006, a Plataforma pelo Desenvolvimento Sustentável da Serra da Estrela com o objectivo de combater projectos ostensivamente alheios à conservação do património Natural, Paisagístico e Cultural da Serra da Estrela e promover um desenvolvimento equilibrado e conciliador que permita ao maior número de pessoas continuar a usufruir de um património que nos foi legado por anteriores gerações.
A Plataforma está consciente que a mobilização e integração das populações locais e da sociedade civil em geral neste movimento é fundamental para alcançar um desenvolvimento real que só o será se a Serra e a cultura das gentes Serranas beneficiarem mutuamente.
Até ao momento, fazem parte desta Plataforma a Associação de Desportos de Aventura Desnível, a Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela, a Associação Distrital dos Agricultores da Guarda, a Liga para Protecção da Natureza, a Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, bem como vários cidadãos a titulo individual.
Volto a referir, proteger a Serra da Estrela é um direito legítimo e não um capricho, um fanatismo. E é principalmente um dever. Um dever o qual todos devemos cumprir pois a Serra não é um caso perdido, mas precisa da contribuição de todos!
Plataforma pelo Desenvolvimento Sustentável da Serra da Estrela
E-mail:padesse@gmail.com
Fórum:www.pdsse.org/forum




Quinta-feira, 31 Janeiro, 2008 at 09:06
Bom dia, sou um residente nas mediações da Serra da Estrela e do Açor, mais propriamente em Oliveira do Hospital, e o que acaba de aqui expor faz todo o sentido. além do mais, e infelizmente sem querer por mais ” lenha ” na fogueira, os senhores nem calculam o que se faz nas redondezas, em sítios onde não floresce o alcatrão…recantos escondidos para a prática do crime à natureza, infelizmente esta é feita por os habitantes locais, transformam encostas viradas a rios e paisagem de deslumbre, em autenticas lixeiras e depósitos de entulhos…o nosso povinho…mas ainda mais violento, é a destruição de várias calçadas romanas para a passagem de estradinhas para os senhores que exploram as madeiras…vocês acreditam??? não!! então convido-vos a verem…e mais…imaginem agora fazerem o mesmo para se passar um corta fogo para bombeiros, quando se podia passar 5 metros ao lado…as pedras não ardem não se preocupem eles, mas acho que ainda não o sabem, a educação vai das autarquias e das juntas de freguesias…mas quem são os autarcas??? que formação têm???qual a sensibilidade para estas matérias??? agora imaginem se numa “cidadela” é assim o que será em freguesias em que muitas vezes o presidente da junta é o Sr. Manuel dos Anzóis…meus senhores talvez isto mude quando nada existir para ser salvo.
Um abraço
João Frade
Quarta-feira, 6 Fevereiro, 2008 at 10:46
Caros Sócios
Numa perspectiva diferente daquela que foi apresentada pelo Tiago, mas aproveitando a citação por ele feita, lanço o desafio para ver quem se dedica a escrever um pequeno artigo sobre a passagem do Jan Jansen pela serra da Estrela, dos estudos da Sociedade de Geografia, enfim, de todo um passado em que a Estrela era ainda uma pérola desconhecida e muito pouco humanizada.
Rogério Morais
Segunda-feira, 3 Novembro, 2008 at 01:05
Ha cerca de 2 ou 3 anos li qualquer coisa acerca de uma “reestruturação do Parque Natural da Serra da Estrela” , o que implicaria a redução dos limites do proprio parque, para, dizia-se nessa noticia, uma melhor “gestão do proprio parque”. A redução dos limites do parque tinha como critério, por exemplo, a exclusão de zonas ardidas por estas deixarem de ter valor ecológico. Embora não esteja a fundo dentro deste assunto, isto pareceu-me muito preocupante, já que deixando essas zonas de serem protegidas e não havendo cuidado para reflorestação das mesmas, abririam espaços consequentemente não-protegidos que poderiam dar lugar a construção civil para o turismo maciço que parece estar na mira dos projectos turisticos para a Serra da Estrela.
Relativamente à poluição e falta de civismo das populações, caberia ao Estado ter o bom senso de criar nos curriculos escolares uma area de educação civica no sentido de integrar o sentido de respeito pelo ambiente na vivência das pessoas sejam elas das cidades ou das aldeias. Para já, nao me parece que o governo tenha muita vontade de o fazer, infelizmente…